Carne Nunca Mais
Pé-na-porta contra os robozinhos do sistema

dez
23

Cães de guarda

Uma noite dessas, fui despertado por um uivo sofrido – certamente de um cachorro, pensei – e, da janela do quarto, deu para perceber no terreno da construção ao lado, onde durante o dia operários se movimentavam, o vulto solitário de um “pitbull” – ou um “fila brasileiro”, podia ser. Seu porte era assustador, mas seu olhar, assustado. Constatei de manhã, pela placa indicativa colocada entre os fios da cerca elétrica, que o animal que me acordara era de uma dessas empresas que vendem segurança pela utilização de cães. E para ali algum deles era conduzido, sempre à tardinha, para vigiar à noite, enquanto perdurasse a construção. Telefonei para o número indicado na placa reclamando do barulho, e o atendente esforçou-se por me justificar alguma coisa que não interessava, mas, no essencial, disse que trocariam o cachorro por outro. De fato, trocaram, mas o outro também sabia uivar, que, afinal, é como todos os cães costumam externar o seu sofrimento. Com essa minha nova argumentação, prometeram outro “pitbull”. Mudariam para uma cadela que, alegaram, tinha outro temperamento. Repetiram-se os uivos, e então resolvi ocupar minha insônia para descer até junto ao muro divisório dos terrenos. Subi num banquinho e – que olhar assustado o dela! – joguei-lhe um naco de costela que havia sobrado da janta. Sacudiu o rabo e correu para abocanhar o petisco. Não ouvi mais som algum, até que adormeci e despertei com o movimento dos funcionários da empresa que vieram buscá-la pela manhã, como habitualmente faziam. Na noite seguinte, surpresa. Ao invés dos uivos costumeiros, latidos. Que é como os cães costumam externar seu instinto de comunicação, seja para alertar, seja para aproximar. No nosso caso, foi isso. Lá desci eu para junto do muro, dei-lhe uns nacos de queijo, e a noite recobrou seu silêncio. Por algum tempo, essa relação – cada qual do outro lado do muro, é claro – perdurou até que a obra acabasse.

Nunca soube de alguém que ela houvesse hostilizado por pretender invadir o terreno, e até duvido que isso fosse possível. Cães costumam se afeiçoar ao que reconhecem como o “seu” território. Só nele desenvolvem suas características, a fidelidade ao dono e a hostilidade ao invasor. E a confirmar isso, o comportamento de minha “vizinha” ocasional, ali, sozinha, num ambiente desconhecido, mais denotava carência e medo, mais provocava pena do que temor.

Pois, ao projetar-se a proibição dessa atividade – empresas vendendo segurança pela utilização de cães –, nossa cidade se humaniza um pouco mais. Sem o exagero daquele ministro do Collor que levava seu cãozinho no carro oficial para o banho semanal na pet shop, à justificativa de que também ele era um “ser humano”. Mas com o mínimo de respeito a um direito que todos os animais têm: o de não serem sacrificados exclusivamente ao egoísmo de nossa utilidade.
* Jayme Eduardo Machado, EX-SUBPROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA – Zero Hora, 23/12/2011

dez
22

natal

por Marcio de Almeida Bueno

Agradeço aos Três Reis Magos que perpetuaram a tradição de presentear nesta época do ano. Só assim eu pude sair daquela gaiolinha solitária, em frente a um vidro onde tanta gente passava e me apontava. Havia outros irmãozinhos, pequenos como eu, mas todos sozinhos em suas gaiolas. Me restava comer, dormir e fazer sujeirinhas ali mesmo, que depois o moço limpava. Agora, alguém me pegou no colo, me encheu de perfume e colocou um laço de fita vermelho no meu pescoço. Na casa nova onde cheguei, minha presença foi motivo de festa, e virei o centro das atenções, com sorrisos, brincadeiras, cafunés. Espero que seja assim para sempre. Espero que algum dia eu possa conhecer a minha mãe, e receber atenção também dela, porque eu nem lembro de se passamos algum tempo juntos. Espero que ela esteja bem.

Obrigado Jesus por ter me destinado a uma família de humanos, que me tratou bem. Cuidei da casa em troca da renovação da água do meu pote, e o direito de comer até o final todas as sobras de comida que alguém me jogava, uma vez por dia, religiosamente. Agora estou um pouco velho, meio doído, mais pateta do que sempre fui considerado ser. Ouvi reclamações nos últimos tempos. Esses dias fui levado a um passeio, no carro da família. Fomos para longe, vi lugares que nunca imaginei ver. Abriram a porta para eu tomar um ar fresco, numa estrada bem movimentada. Foram embora antes que eu pudesse perceber, tentei correr atrás mas a idade já não me permite. Estou aqui há alguns dias esperando, porque acredito que vão voltar para me buscar. Passam tantos carros, tantas famílias iguais à minha, alguns olham, mas ninguém pára. A sede é muita aqui neste acostamento, antes eu latia para os carros que eu acreditava serem da minha família, mas faltam forças. Sigo esperando aquelas pessoas conhecidas voltarem para me buscar e eu poder ir para casa. Eu tenho fé.

Obrigado bom Deus pela floresta e toda a natureza que foi o meu lar desde que nasci. Correr livre não tem preço. Mas, nos últimos tempos, ouço muito barulho, vejo humanos e máquinas fazendo limpeza na floresta. Parece que é tudo em nome do progresso, porque quem mora lá longe precisa das coisas que existem aqui na minha casa. Mas acho que as máquinas estão exagerando, pois muita floresta já não existe. Lugares onde eu dormi, comi, esperei a chuva pasar, agora é só chão, sem árvores para subir ou fazer sombra em dias de calor. Estamos todos indo para o outro lado, pois está perigoso ficar aqui. Nesses lugares onde não existe mais floresta, reparei que há animais diferentes, todos iguais e com chifres, comendo o que há no chão o dia todo. Talvez a gente estivesse ocupando muito espaço, e esses irmãos novos precisassem de lugar para ficar. Eu cedo o meu espaço, mesmo triste pela mudança, porque sei que os humanos estudam muito, e sempre sabem o que é certo, o que nós não entederemos jamais.

Obrigado Nossa Senhora, que um dia usou seu manto para envolver seu filho que nascia, e também quando ele morreu. Eu nem conheço meus filhos, mas dei minha própria pele para envolver e aquecer as costas e os pés de tantos humanos de quem não sei o nome. Vivi um bom tempo só comendo, até o dia que um caminhão veio nos buscar, depois tudo foi confuso e assustador, mas atribuo isso à minha incapacidade intelectual. Vi que outras iguais a mim eram penduradas e a pele era gentilmente retirada, já que os humanos não têm proteção e precisam da minha pele, que é grossa e resistente. Acho que pude recompensar quem me deu comida e espaço durante tanto tempo, ofertando um couro que eu já não mais vestiria, pois a morte já me levara a pastar nos campos longínquos onde habita o Nosso Senhor.

Muito obrigado Jesus pelo meu nascimento. Só acho que a minha mãe não gostou de mim, pois logo eu fui retirado de perto dela. Essa é uma dor que não esqueço. Devo tê-la feito chorar, como um dia você fez sua mãe Maria chorar. Eu ainda ouvi seu choro ao longe, e tenho certeza de que ela está na mesma fazenda que eu, mas não nos deixam nos ver. Agora eu fico parado em um lugar desconfortável, onde mal posso me mexer, e não posso nem deitar para dormir. Meu arrependimento é grande. Gostaria que intercedesse e pedisse que a minha mãe me perdoasse do que quer que eu tenha feito. Acho que já me desculpei, e quando este castigo terminar eu poderia tornar a vê-la, pois sei que mãe e filho devem estar sempre juntos, enquanto este for pequeno. Não sei falar a língua dos humanos, então quando eles se aproximam, eu só tenho o meu olhar. Eles dão risadas – o final do ano é sempre uma época de felicidade para todos – e dizem que minha carne vai estar bem macia. Eu não sei o que isso quer dizer, e prefiro não pensar nisso agora. Prefiro fazer força e lembrar dos poucos instantes que vivi ao lado da minha mãe – ela parecia tão grande e forte – em um lugar que, mesmo cercado, dava para esticar as pernas. Aqui eu não posso me virar, tudo é desconforto. Espero, sinceramente, que a ‘carne macia’ que os humanos falaram signifique a minha liberdade. Se eu pudesse escolher, ficaria comportado em uma manjedoura, sem o castigo de ficar fechado e imobilizado. Peça, Jesus, para a minha mãe me perdoar logo.

Deixo aqui minha gratidão a todos os anjos, pois nada mais honrado a um ser do que que poder abrir mão da própria vida em função da felicidade de outros. Quando nasci eu era tão pequeno, com meus irmãozinhos, e minha mãe era tão grande e gorda, que eu mal via seu rosto. Ali a maioria era grande, mas rapidamente eu tive que ir embora, e não lembro se houve um olhar de despedida da minha gorda mãe. Para onde eu fui, todos estavam de branco. Eu acho que eram anjos, pois colocavam muitos irmãos meus, que pareciam desesperados, para descansar. Ouvi dizer que a câmara fria estava nos esperando, mas eu não queria passar frio. Queria o calor da minha mãe. Queria o cheiro dos meus irmãozinhos de volta – onde estava, só havia cheiro de sangue, pois alguém devia ter se machucado muito. Poderiam ser médicos todos esses que estavam de branco. Enfim, obrigado a todos eles, pois nesta noite tão especial me deixarem descansar por sobre uma mesa bonita. Há velas, risadas e abraços. Eu acredito, do fundo do meu pequeno coração que já não está mais batendo, que eles eram anjos que vieram me buscar.

Fonte: ANDA

nov
11

carnaval

out
28

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vegana

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28

‘A fazenda do DOUTOR fulano’ etc

pecuraista

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Vai lá e faz

out
15

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out
15

O sono das galinhas

por Sônia T. Felipe

Na coluna anterior, “Omitir-se de praticar o mal não basta”, tratei não apenas da questão dos deveres negativos e positivos que nos tornam agentes morais responsáveis, mas também dos desdobramentos de nossas ações que envolvem tirar a vida dos animais para satisfação de algum interesse humano. Num cálculo arredondado, para dar uma noção preliminar do erro que cometemos ao matarmos galinhas, porcos e bois para produzir “carnes”, pudemos ver o quanto amputamos da vida desses animais, ao matá-los na sua infância.

Mas o erro moral não se limita ao fato de tirarmos a vida dos animais. Tirar a vida, em alguns casos, pode até não ser o maior dos erros, por exemplo, quando a vida não pode mais ser vivida de forma digna, o que acontece quando um cavalo fratura uma perna, pois seus ossos não se regeneram. Viver atirado ao chão não é vida digna para um ser da espécie equina. Mas o tema da morte digna já tratamos na coluna “Eutanásia”.

Precisamos pensar sobre o erro que cometemos ao tirarmos a vida dos animais para atender nossos interesses gastronômicos, quando estes podem ser atendidos com alimentos de origem vegetal. Temos uma ansiedade imensa por proteínas e gorduras de origem animal. O mercado internacional mobiliza boa parte do dinheiro ao redor do mundo nos negócios da comilança de carnes, leite e laticínios, ovos e tudo o mais que é fabricado usando-se matéria orgânica animal. Mas esse mercado não cresceria, não fosse a demanda humana por tais alimentos. O mercado da carne está sustentado no assassinato em massa dos animais. Uma verdade dolorosa e repulsiva. A verdade não é doce, jamais. Animais são executados no momento mais frágil de sua existência: a infância e adolescência.

Creio que poucas pessoas sabem, de fato, que, ao comerem uma carne bovina assada, estão comendo pedaços do corpo de um animal que nascera para viver de 17 a 25 anos. Mas esse animal foi apunhalado e tirado da vida aos 2 anos. Ao comerem “frango assado”, os humanos não sabem que estão ingerindo pedaços do corpo de um animal que nasceu para viver de 15 a 20 anos, mas foi degolado aos 43 dias de vida. Na coluna anterior ofereci alguns cálculos aproximados, para dar uma noção do quanto de vida foi amputado ao abater esse frango. Ao comerem “pernil” ou “presunto”, os humanos não sabem que estão ingerindo pedaços de um animal que nasceu para viver de 10 a 12 anos, mas foi apunhalado aos 140 dias de vida. Para comer, os glutões humanos amputam a vida dos animais cobiçados. Sim, comemos em excesso, por gula, não por necessidade. Padecemos de excesso de gordura e proteína animais, mal digeridas, porque nosso pâncreas não consegue produzir suficientemente o glucagon, responsável pela digestão delas. Daí as doenças que abarrotam os corredores dos hospitais de macas, nas quais os pacientes são “internados” para receberem drogas que os aliviam dos sintomas de uma dieta maléfica.

Humanos sofrem de ansiedade por alimentos de origem animal. Conforme bem o explica o médico Neal Barnard [fundador do Comitê dos Médicos para a Medicina Responsável, uma ONG que congrega quase 10 mil médicos], em seu livro Breaking the Food Seduction, e a nutróloga Carol Simontacchi, em The Crazy Makers, a fissura por gordura animal é adicção, como o é a fissura por outros aditivos que alteram o estado de consciência. Portanto, ter um forte apetite ou desejo de comer carnes, queijos, sorvetes, chocolates, não é indício de que o organismo está “precisando” dos nutrientes contidos nesses alimentos. É o cérebro que esperneia para obter mais gordura e açúcar, seus dois alimentos preferidos. O fato é que podemos dar a ele gordura e açúcar de origem vegetal. Mas nossa cultura nos induziu a pensarmos que estes não prestam, só os de origem animal.

E, para piorar tal agitação, os comedores humanos ouvem dizer, todo tempo, que “somente em alimentos de origem animal é que existem as proteínas necessárias à saúde humana”. Cada vez mais os humanos querem comer mais carnes, mais queijos, mais ovos, mais alimentos produzidos com matéria animal. E, em seu afã de comer mais e mais matéria de origem animal, os humanos estão perdendo a capacidade de raciocinar sobre a origem dela e, especialmente, sobre a trajetória percorrida pelo animal, do dia em que nasce ao dia em que é abatido. Os humanos estão convencidos de que qualquer que seja o mal infligido aos animais, nenhuma marca fica registrada na memória das células que formam os tecidos dos músculos consumidos, ou das que respondem por suas secreções hormonais: leite e ovos.

Onívoros não se perguntam sobre o sofrimento animal, e ainda menos sobre o direito dos animais à vida longa e saudável. Esse é um direito universal de todas as espécies vivas. Mas achamos que, por terem sido os humanos a pensarem em estabelecer para si tal direito, os animais não devem ser incluídos no âmbito da justiça.

Algumas fêmeas bovinas, suínas e galináceas vivem um tempo maior do que as outras de sua espécie, ou do que a maioria dos machos. Mas o destino que as aguarda não tem similar, quando se trata da crueldade levada a efeito pelo sistema de produção que extrai delas o leite, os ovos ou suas ninhadas, no caso das suínas. Destinadas a produzirem ovos, as galinhas têm seus bicos cortados sem anestesia logo nos primeiros dias de vida. A razão pela qual isso é feito é porque serão forçadas a viver empilhadas e confinadas em espaços exíguos, não mais do que o de uma caixa de sapatos por ave, nos galpões onde viverão por dois a quatro anos, sem jamais saírem para ciscar o chão, receber um raio de luz solar, esticarem as asas, escolherem as amizades, formarem sua rede social, chocarem seus ovos, cuidarem de seus pintainhos. No confinamento total, a única função que exercerão, à revelia de sua natureza, é botarem ovos sem parar, até que a descarga hormonal se esgote completamente.

Volto a eleger um ponto para apresentar cálculos que nos permitem ver com mais clareza o quanto somos cruéis contra os animais, ao amputarmos deles o bem próprio que a vida lhes propicia, ao transformá-los em meros itens do nosso consumo, algo que não é de sua natureza. Nenhum animal nasce para servir a outro.

Pensemos no tempo de vida de uma galinha: de 15 a 20 anos. Desse tempo, se pudesse viver livre, ela passaria umas 10 ou 12 horas por dia, digamos, das seis da tarde às quatro a seis da manhã seguinte, recolhida, descansando sua hipófise dos estímulos produzidos pelos raios solares. Sem a luz do sol, o organismo galináceo inicia a produção do hormônio que leva ao descanso e ao sono. Para cada 15 anos de vida, uma galinha passa, em média, se não tiver sua vida amputada por artifícios humanos, 7 anos e meio descansando. Para isso, ela escolhe lugares protegidos, sem luz e silenciosos. É assim que ela se recupera de um dia de atividade e excitação intensas. Calculando-se por alto, a galinha precisa gastar metade da sua vida para se recompor do estresse que a atividade galinácea diária representa. No sistema de confinamento completo, no qual as galinhas são mantidas como “máquinas de produção de ovos”, não lhes é dado descanso algum. A luz artificial é mantida acesa por até 22 horas diárias. Essa prática hiperestimula a hipófise, que descarrega estímulos sobre o restante do sistema hormonal, fazendo com que essas fêmeas ovulem sem parar. Para garantir que a crueldade de fazer o bicho ficar sob o raio da luz não seja vã, a ração que elas recebem vem preparada para acelerar o processo de ovular ininterruptamente.

Sem dormir, comendo um alimento que não comeria se pudesse escolher livremente do que se alimentar, as galinhas são mantidas na produção, quando muito, algo em torno de quatro anos, ao fim dos quais estão “gastas”. Este é o termo usado pela indústria para justificar o abate delas. Quando cessa a produção hormonal, é hora de serem degoladas.

Se houvessem vivido esses mesmos quatro anos livres, algo em torno de 35.000 horas de vida, teriam passado quase dois anos desse tempo, umas 17.000 horas, em estado de repouso, recuperando as forças para cuidarem de si de acordo com o que sua natureza galinácea requer. Mas, confinadas pelo sistema industrial ovorista, em quatro anos, em vez de terem descansado suas quase 12 horas diárias, elas são mantidas estimuladas pela luz artificial por até 22 horas diárias, o que significa, para seu cérebro, 10 horas a menos, por dia, de recuperação. Além dessa tortura, são forçadas ao convívio com milhares de outras aves, quando em liberdade elas vivem em grupos pequenos, menos de 10 aves por grupo, formado a partir de suas próprias escolhas das melhores companheiras de vida.

Não bastasse terem de viver empilhadas umas sobre as outras, quer gostem ou não do contato físico e da falta de privacidade que isso representa, as fêmeas galináceas são obrigadas a respirarem um ar carregado de amônia, sobrecarregando seus pulmões com infecções. A postura forçada de ovos leva ao prolapso do útero. A galinha não morre com esse prolapso. Ela também não é atendida por um médico, porque o procedimento custa caro. As outras bicam o útero pendurado para fora do corpo. Ela vai morrer de infecção não tratada.

O silêncio, para todo animal, é um condição sine qua non para um repouso tranquilo. Como ter isso em meio a 2.000 ou 10.000 aves em sofrimento contínuo? Impossível. Assim, em estado de estresse crônico, elas se tornam canibais. Para evitar perdas, o sistema queima o bico das pintainhas que serão vendidas para as firmas de ovos. Não nos esqueçamos que a área ao redor do bico de uma ave é formada por uma rede de nervos, garantindo a sensibilidade dos olhos, olfato, auditiva e tátil, sem a qual seu cérebro não poderá receber as informações devidas. A dor da ferida, com a cauterização do bico feita por lâminas de aço ou em brasa e sem anestesia, pode durar semanas… sem analgesia. Esse é o cumprimento de boas-vindas ao mundo, dado pelos humanos às pintainhas que só serão deixadas a crescerem para serem usadas como máquinas de ovos. São ainda bebês, mas é com o bico em ferida que elas devem comer a ração. Basta imaginar como faríamos isso sem dor, se tivéssemos que pegar diretamente com a boca o alimento, sem usar as mãos para introduzi-lo entre os lábios, após termos os lábios cauterizados por uma lâmina em brasa … sem anestesia… sem analgesia.

Um ano de vida, seguindo o padrão da espécie, daria a uma galinha algo em torno de 8.000 horas, das quais umas 4.000 seriam aproveitadas para repouso, de preferência no escuro. Um ano de vida no confinamento completo representa as mesmas 8.000 horas, mas, ao contrário da vida no padrão que seria natural a essa espécie, em vez de ter umas 4.000 horas para descansar, as galinhas têm apenas umas 700 horas de descanso, quando o sistema adotado é de iluminação artificial por até 22 horas diárias.

Sabemos por experiência própria o desgaste que nosso cérebro sofre quando não podemos dormir em paz a quantidade de horas requeridas para o restabelecimento do nosso corpo, da nossa mente e da nossa consciência. Sabemos o desconforto que nos assola, o transtorno de humor, a limitação para iniciar ou manter interações sociais prazerosas, quando nos faltam as horas de sono. Passamos mais tempo dormindo, em nossa vida animal, do que comendo ou trabalhando. Mas, quando se trata do sono dos animais, deixamos de lado qualquer consideração moral. E, para coroar nosso atordoamento, ingerimos os ovos que saem dos organismos estressados dessas fêmeas. Amputamos os anos de vida que sua espécie lhes propiciaria em liberdade, amputamos seus corpos e também as funções saudáveis do cérebro e da mente dessas fêmeas. Tudo isso para extrair delas algo que contém nutrientes disponíveis em alimentos de origem vegetal.

É preciso usar nossa racionalidade instrumental, isto é, nossa capacidade de fazer contas, para redefinir os padrões morais que alimentamos ao nos alimentarmos. Temos usado nossa razão instrumental apenas para calcular o quanto podemos tirar dos animais para nosso proveito. Seguindo o dever de não apenas parar de fazer mal a essas fêmeas, mas começar a fazer o bem a elas, está na hora de começarmos a calcular quanto devemos devolver a elas do bem próprio que lhes vem sendo amputado, quando queremos seus ovos para compor nosso prato já farto de nutrientes.

Fonte: ANDA

out
14

Foto: Alan Bastos
navio curral

por Marcio de Almeida Bueno

Como se já não bastasse a pecuária em si, arrancando à força a valiosa matéria-prima dos animais – e da natureza, para aqueles que separam esses assuntos em gavetas diferentes, ainda há o caso dos clientes exigentes, aqueles que querem atendimento VIP. E não o Rio Grande do Sul quadruplicou a exportação de ‘gado em pé’. Vejamos que este é um eufemismo, entre muitos que nos ludibriam no dia-a-dia, e significa gado transportado vivo, em navios-currais, naqueles porıes apertados, abafados e VIPs da maneira que podemos imaginar. Ou assistir no YouTube, quando der coragem.

Em Rio Grande, o porto recebeu o navio Kenoz, que buscou 8 mil ‘cabeças’ – aí eufemismo- e leva agora para Turquia e Jordânia. Antes, o turismo da morte tinha como destino o Líbano, que só aceita animais ‘inteiros’. Desta vez, são animais gordos e já castrados, prontinhos para o abate, que valem – sim, tudo na vida tem seu preço, baby – R$ 2,80 o quilo. Do outro lado do planeta, o pessoal fica esperando já com babador, segurando garfo e faca, como nos cartoons, e salivando pelos futuros churrascos. O chato é que ainda esão vivos, mugindo e cagando, mas quanto a isso o povo de Alah dá um jeito rapidinho.

O fato é que para ter o prazer de curtir a mastiga-lo do começo até o final, desde olhar para um boi gaúcho, vindo do outro lado do mundo, até a puxada de descarga final, tem que encomendar o telegado vivo. A outra razão é o preço mais baixo, que compensa a viagem de quase um mês. Enão são dezenas de decks com as baias dos animais, que vão passar pela experiência de ‘ficar preso em um elevador’ por cerca de um mês, até chegar no Oriente Médio que segue salivando. Os bois que morrem no meio do caminho são sangrados e jogados no mar. Exceto no Estreito de Gibraltar, onde é proibido, então são mantidos no navio até chegar no seu ‘destino’. Um total de 2% dos animais embarcados empacota antes de ter a oportunidade de cagar e ter sua garganta cortada por uma cimitarra. E o cheiro de amônia, resultante dessa mistura de estresse, milhares de animais fazendo ‘número 1′ e ‘número 2′, morte, sangue, pressão, tensão e enjoo, obriga todos a usarem máscara de proteção.

Então cabe aos animais nascerem para que uma planilha de Excel seja preenchida corretamente, e eles vão se prestar até mesmo a serem carga viva em tortuosas viagens intercontinentais, calor e frio e balanço e morte. A morte aqui e agora, ou lá longe, após um êxodo forçado, enchendo de bosta os portos, enchendo as páginas dos jornais domesticados – gado em pé, mas sentado em frente ao Word, e enchendo os bolsos de alguns poucos escolhidos por Alah.

Enquanto isso, os olhos piscam de quem está ali apenas por sua carcaça, vivo o tempo suficiente para a viagem final, o fluxo de sangue que une o RS aos 1001 desertos. A perda de peso – que também entra na planilha – de quem está suportando uma mostra da panela onde vai ser cozido, logo mais, pois há um mercado ávido de vida, com milhões de bocas salivando, e que exigem os caprichos de ver os estrangeiros de quatro patas antes do arroto final, vivos ou já meio zumbis. Não importa se houve dor, se haverá dor, se o confinamento maior é das idéias ou dos não-humanos escolhidos como comestíveis, entre tantos à disposição. Cabe ao homem dar os telefonemas certos, as ordens certas, espremer o gado vivo em um moedor de carne em formato de navio, que entrega lá longe o pré-churrasquinho pelo qual tanto salivam. E todos terão orgulho da exportação de morte, abençoada pelos deuses concorrentes, de continentes diferentes.

Fonte: ANDA

out
14

(Foto: Marcio de Almeida Bueno)
peixe

“Mantêm você dopado com religião, sexo e TV / E você se acha tão inteligente, incomum e livre”
(John Lennon, em ‘Working Class Hero’)

por Marcio de Almeida Bueno

Quando se diz ‘Semana da Pátria’, são dias para homenagear e bater palmas à Pátria, quando é ‘Semana Santa’, significa uma sequência de dias sagrados para os católicos etc. Ou seja, a favor do assunto em questão. Mas quando o Governo Federal promoveu em setembro último a Semana do Peixe, era o contrário. Incentivo ao consumo de ‘pescado’, naquela conversa de vida saudável – termo que abrange de tudo, até ideias opostas.

Mas o ponto é que o peixe – citado aqui para fins de clareza e economia de espaço, já que o material oficial da campanha do Ministério da Pesca incluía camarão, siri e outros ‘frutos do mar’ – ganhou o carimbo de comidinha leve, saudável e não-carne. Já é piada corrente a frase ‘não como carne, só peixe’, ou os autointitulados vegetarianos, por só comerem… aquele animal que vocês já sabem. Peixe não tem sangue, peixe tem sangue frio, peixe não sente dor, peixe tem consciência coletiva, peixe é burro, Jesus comia peixe – todas essas frases-clone são xerocadas de boca em boca, babadas, e entraram na gaveta do senso comum. Quem não der essa resposta na hora da prova, valendo nota, ganha zero da sociedade.

Na obrigação de sempre compartimentar o universo, a humanidade divide os animais entre úteis e nocivos, comestíveis ou não, alvos de amor ou tiro. Essa contabilidade vem desde a Bíblia. Em Levítico, 11, há o trecho “… de todos os animais que há nas águas, comereis os seguintes: todo o que tem barbatanas e escamas, nas águas, nos mares e nos rios, esses comereis. Mas todo o que não tem barbatanas, nem escamas, nos mares e nos rios, todo o réptil das águas, e todo o ser vivente que há nas águas, estes serão para vós abominação. Ser-vos-ão, pois, por abominação; da sua carne não comereis, e abominareis o seu cadáver… Esta é a lei dos animais, e das aves, e de toda criatura vivente que se move nas águas, e de toda criatura que se arrasta sobre a terra, para fazer diferença entre o imundo e o limpo; e entre animais que se podem comer e os animais que não se podem comer”.

O estalo do chicote que chegou até aqui, a fazer doer a bunda dos defensores dos direitos animais, é que temos que lidar com pessoas, ditas esclarecidas, que não comem carne, só peixe. Que jejuam na Sexta-feira Santa, comendo só peixe. Jesus comia peixe. Que se tornaram vegetarianas por consciência, então agora só comem peixe. Que estão preocupadas com questões de ecologia anal, então optaram por comer só peixe. Que já refletiram sobre a – própria – saúde à mesa, então só trituram ‘pescado’ em seus dentes não-carnívoros.

E mesmo entre os que estão na causa animal, poucos pensam na morte dos peixes, a sério. Não a morte como estatística, como violência gráfica, mas o instante da morte. O momento de empacotar para sempre. Pois teoricamente, e bota boa vontade minha nisso, os demais animais para consumo têm um fiapo de consideração legal em relação ao instante da morte – esta situação que está além de nossa vontade, infelizmente. Aviso aos(às) chatos(as) que só conseguem chegar ao orgasmo quando apontam para alguém e gritam ‘Joga pedra na Geni! Ela é bem-estarista! Ela é boa de cuspir!’, que permaneço a salvo de suas cusparadas amargas.

Quando a WSPA – cusp! cusp! – fala de abate humanitário de peixes, é claro que nenhum abolicionista permanece quieto na cadeira. Óbvio, e não precisamos discutir isso, combinado? Combinado. O ponto que levanto é que a maioria das pessoas, essa gente aí fora, mandando mensagem via celular e subserviente por opção – dá risada. Sonoras risadas. Peixes? Ahahahahhaha. E ainda cutuca o cidadão ao lado, para rir também.

Ou seja, os peixes estão entre as ondas e os rochedos, para usar uma metáfora apropriadamente clichê. Nem se pode discutir sua morte – inevitável, já que o mundo não será vegano a partir da semana que vem, infelizmente – nem se pode discutir sua morte. Percebem o paradoxo? Não se pode discutir a morte de peixes, e também não se pode discutir a morte de peixes. Não, eu não escrevi errado, é isso mesmo. Sutil, mas o tabu é esse.

O cidadão médio repassa aos conhecidos aquele clássico email do festival da matança de baleias na Dinamarca, acho que o assunto é ‘Fw: Vergonha Mundial!!! Repassem! Joguem pedra na Geni!!!’. Poucos fazem o hiperlink com a sangueira que foi gênesis de sua refeição. Incluindo o tal peixinho grelhado, recomendado pelos cardiologistas.

Sim, eu sei que baleia não é peixe, nem morcego é inseto, como pensa o Calvin.

Lembrei também de uma recente ‘pescaria de protesto pró-Xingu’ – novamente a ecologia mostrando a língua para os direitos animais. A caça de peixes como algo lúdico, puro, natural, Robinson Crusoé etc. Quero dizer que o especismo vai se enraizando em todas as invaginações do sistema, ao ponto de fazer crer às multidões que peixe ‘não é carne’. E nem mesmo tudo que está na água é comida – não por nojo, mas por peninha. Como quebrar essa muralha que parece crescer junto com o aumento populacional? Como resolver essa equação de saber que os peixes seguirão sendo mortos por asfixia para o consumo humano, mas sem perder o tempo abolicionista resolvendo os nós bem-estaristas?

Não tenho resposta pronta, ainda – até porque no meio dessa guerra da humanidade contra os animais, preciso estar atento a eventuais cusparadas.

Fonte: ANDA

out
05

O guitarrista inglês Eric Clapton é um ferrenho defensor da caça, proprietário de uma loja de caça e pesca na Inglaterra, e até mesmo já organziou shows em prol desse ‘esporte’, junto a outros roqueiros geriáticos (que só dão tirinhos em animais), como Roger Waters e Roger Daltrey. Em sua autobriografia, Clapton diz que os ativistas pelos direitos animais “assistiram a muitos filmes da Disney”, e outros deboches. Em uma entrevista de 2009, ele fala que “caçar melhora as habilidades sociais”.

caça

Em Porto Alegre, o ‘artista’ desceu no Aeroporto Salgado Filho e saiu por uma porta lateral, sem passar pelo saguão – provavelmente, para não ter que se deparar com a exposição sobre direitos animais promovida pela ANDA (Agência de Notícias de Direitos Animais), que está no térreo do aeroporto até o dia 31 de outubro.

O Carne Nunca Mais propõe o boicote aos shows deste músico que só tem ‘sensibilidade’ para a hora de ganhar dinheiro dos fãs.

jul
13

por Marcio de Almeida Bueno, jornalista

Queria eu escrever coisas bonitas e fofas sobre os animais. Mas estaria escrevendo sobre uma parte, menor parte, de uma totalidade de seres que estão na Terra já para sofrer, criados e vindos com objetivos pré-definidos, e nada favorável a eles. Nada que os poupa da dor, da opressão e da vida de escravo, barriga cheia ou não.

Queria eu descrever cenas como as que correm pela Internet, de porquinhos se esfregando os focinhos, de porquinhos rosados dormindo entre flores ou em um cesto, bebê de quatro patas e com a mesma inocência, provocando um ‘ai que fófoi’ das pessoas. Mas esse não é o mundo lá fora, de criações em divisórias de concreto, merda sólida, líquida ou gasosa no ambiente, confinamento, retirada de dentes, castração, engorda e ‘vida’ como uma torturante sala-de-espera-de-dentista até o banho gelado final – para concentrar a circulação sangüínea junto ao petio – e a sangria obrigatória. Uma vida de pré-lombinho assado, pré-salame, pré-lingüiça, que nada tem a ver com o Gaguinho ou outros procos antropomorfizados que, quando criança, aprendemos a amar. Eu mesmo passei a minha infância apaixonado pela Miss Piggy, dos Muppets. Enfim.

Queria eu relatar como os pintinhos se protegem sob as asas da mãe, zelosa, imagem clássica que tanto ilustrou livros infantis. Mas o sistema, ajoelhado aos ditames do Dr Moreau, criou o frango, um zumbi-clone-mutação, que vive aos milhares durante poucos dias, para então alimentar – de forma especial, digamos – todo aquele que bate no peito para dizer ‘sou contra os transgênicos’. Aí pede pastel de frango, pois ‘é vegetariano’. Claro, todo mundo aqui tem um tio, e esse tio tem um sítio, e nesse sítio as galinhas vivem soltas e felizes e com pintinhos e não são mutantes. Acredito piamente que há um Sítio da Vovó Donalda na fé de cada um. Enfim.

Queria eu pintar quadros onde os cavalos correm livres o dia todo – “mordendo o vento na cara, bebe horizonte nos olhos, empurra a terra pra trás”, diz a canção ‘Potro Sem Dono’. Quadros como aquelas fotos decorativas onde há cavalos graúdos, longas crinas, gramados guardando sua presença, cavalinhos ainda aprendendo o potencial das próprias pernas. Mas – sempre tem o mas – basta abrir a janela para ver um cavalo miúdo, seco, na sede e Sol na cabeça, puxando a miséria humana sobre carroças. Se não puxa, apanha – essa regra é clara, e só não percebe a relação de poder quem romantiza, sempre, a figura humana, especialmente quanto mais pobre for. Mas o não-miserável cria cavalos, bota para correr no Jockey, faz montaria – acrho bizarro puxar um animal pela boca estando montado nele, e dizer ‘adoro cavalos’ ao mesmo tempo – e se diverte com rodeios, e bota o cavalo para ser veículo de transporte humano em desfile, forças armadas ou passeio. Escravos de barriga cheia, escravos de barriga vazia.

Queria eu escrever uma poesia sobre animais fofos e peludos, mas… não dá para ignorar o que acontece na indústria de peles, nos laboratórios de pesquisa.

Queria eu chamar ao palco todos os demais, submetidos a uma tirania humana que, tal seu poder, até eventualemnte vai se compadecer de tanto sofrimento, mas não abre as algemas. Separa bem o que vai sofrer do que vai ser afagado, o que será alvo separado do que vai ser bibelô, o que é praga afastado do que foi comprado para ser companhia e preencher vazios da vida, o que é ingrediente abundante e vai morrer dentro em breve, do que merece todos os esforços, captação de recursos e projetos governamentais para não morrer. Essa é uma escolha ditatorial humana, um exercício de poder que determina – tal como as barrigas cheias e barrigas vazias de sua própria espécie – quem é ‘polegar para cima’ ou para baixo, conforme o azar que teve na hora de nascer, e o respectivo encaixe nas planilhas de Excel da humanidade.

Fonte: Vista-Se

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20
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Fotos: Ulet Ifansasti/Getty Images
jacarta

por Marcio de Almeida Bueno, jornalista

O jornal Denver Post publicou neste mês de junho uma galeria do fotojornalista Ulet Ifansasti, que na cidade de Jacarta, Indonésia, esteve acompanhando os macacos treinados que fazem truques na rua. São, talvez, algumas das mais perturbadoras imagens que já vi na minha vida de jornalista e ativista pró-animais. Sujeira, miséria e degradação – social e moral, deixemos bem claro – de um país que, volta e meia, entra no pacote da ‘sabedoria oriental’, que tantos incautos angaria aqui no Ocidente. Nas fotos, eu apenas vi humanos presos às ratoeiras das conseqüências de sua própria superpopulação, o que entope esgotos – onde estes existem, vejo que é luxo, ainda – urbanos, arranca com mais voracidade tudo que está em preparação no rural, e entorpece a maioria das pessoas, que são tocadas como gado por uma minoria ‘dois neurônio’ mais esperta. E para botar um pouco de luz, de cor e de alegria tênue nessa vida de tijolo vivo, basta treinar animais não-humanos para dançarem e vestirem roupas que o fazem parecer uma pessoa. Uma pessoa desajeitada, sem motivo para seguir em frente exceto o castigo lá adiante, que não sabe se caminha de quatro ou em pé, que fala uma língua espasmódica, e tudo isso deve provocar diversão e lazer para os quem estão acima, claro, dessa condição de animal pateta. O palhaço que escorrega para todos rirem, o personagem desafortunado da piada que vai de boca e boca, levando a baba da tradição oral inculta pelos tempos. A repetição do dia anterior, outorga para tudo que é feito cotidianamente.

E assim os macacos apresentam o show de suas vidas sobre o concreto feio e sujo, música urbana. As roupas mimetizam glamour e decadência, aparência de importância e solenidde com uma existência qualquer-nota, e o que alguns aplaudem e dão moedas é o mesmo que outros percebem como a estrutura-raiz da humanidade. Subjugar o que está a seu alcance, enquanto pode. Confesso não imaginar os detalhes das técnicas para treinamento desses ‘truques’. Quando não treinados, permanecem na coleira, junto a um pote de esmolas. Mas o showbizz não pára.

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E muitas vezes quem luta pelos direitos animais escuta o mantra ‘vocês estão humanizando os animais’, como se houvessem degraus/castas bem definidos onde cada um deve ficar, e este aqui, por ser parecido comigo – mas não me chame de macaco que é ofensa! – vai ser um bobo-da-corte porque assim eu quero. Colocar roupas, cabelo, máscara de boneca em um animal, fazê-lo andar ereto, pilotar uma bicicletinha em meio às baganas de cigarro da calçada – eis o ‘humanizar’, da forma doente que a visão de dominação dita. E a antropomorfização serviu apenas para que o pai e mãe, que ali param para proporcionar aos filhos um instante de brilho em meio à caixa-de-gordura-entupida de suas vidas, eduquem seus rebentos a ver o animal não-humano como um alvo, um cabide, um acessório, uma engrenagem, um ralo para a humanidade.

E ensinam a não ver que há uma corrente bem presa no pescoço de cada um deles, e a ver que não há uma corrente bem presa no pescoço do macaco, pois assim a mágica parece verdadeira, e a vida, mágica.

Me parece que o detalhe cruel da máscara de boneca, antes de qualquer adorno circense-ilusionista, foi a saída que o humano-que-segura-a-corrente encontrou para tapar e tampar a expressão facial do animal-atração que ali se descobriu na tediosa e estressante sala de espera de sua própria morte.

As fotos estão em http://blogs.denverpost.com/captured/2011/06/02/in-focus-performing-street-monkeys/4478.

Fonte: ANDA

mai
04

tau golin
Luis Carlos Tau Golin, jornalista e historiador: “O tradicionalismo passou por algumas fases distintas, até assumir oficialmente um caráter ‘oficialista’, cívico-fundamentalista”

Há alguns anos circula pela internet o Manifesto contra o Tradicionalismo, escrito por um grupo formado por jornalistas, historiadores, produtores culturais, pedagogos e autoridades acadêmicas. O manifesto é um texto que reúne diversas reflexões sobre o sentido do MTG na sociedade rio-grandense. Segundo o grupo, “o manifesto é, em seu conjunto, a defesa da cidadania, da democracia, das relações republicanas e da liberdade cultural (…) representa um movimento da ilustração contra o fundamentalismo”. A IHU On-Line conversou com o professor e jornalista Tau Golin sobre o manifesto. Durante a entrevista, feita por e-mail e telefone, Tau Golin afirma que “o tradicionalismo, ao ser inventado por um grupo de jovens secundaristas (…), surgiu no sopro dos regionalismos, porém com uma adaptação, com a busca de um modelo. Esse modelo foi se especializando até se transformar em uma militância sistêmica”.

Luis Carlos Tau Golin graduou-se em jornalismo (1986) e História (1994). Seu mestrado e doutorado, na área de história, foram concluídos na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Atualmente, é professor da Universidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Seus projetos de pesquisa atuais estão focados na iconografia e no inventário documental da fronteira do Estado em dois de seus vizinhos: Argentina e Uruguai. Além disso, estuda a formação das fronteiras geopolíticas do Rio Grande do Sul.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual a função atual do MTG na sociedade gaúcha?

Tau Golin – O Tradicionalismo passou por algumas fases distintas até assumir oficialmente um caráter “oficialista”, cívico-fundamentalista. Em todo o seu desenvolvimento, no entanto, ele representa a expressão de uma contradição fundamental, de uma tensão entre os dirigentes e as esferas concretas das representações sociais. O Tradicionalismo teve seu impulso criador no espectro dos movimentos regionalistas, que começaram a aparecer na segunda metade do século XIX. No Brasil, invariavelmente, durante a República Velha, as elites regionais buscaram tipificar seus perfis nos discursos e símbolos locais. Na luta política, curiosamente, esses elementos eram utilizados como caracterização “do outro”, muitas vezes como caricatura, com elementos pejorativos. Essas “nomeações”, no geral, ocorriam a partir “de fora”. E aquilo que inicialmente possuía uma intenção depreciativa passava a ser adotado como uma caracterização identitária. A truculência da elite rio-grandense na cena política nacional e platina deu-lhe o classificativo depreciativo de “gaúcho” (grupo social de ladrões de campo, salteadores, gente sem hábitos civilizatórios etc.). Por diversos processos, acabou em gentílico.

O Tradicionalismo, ao ser inventado por um grupo de jovens secundaristas no Colégio Júlio de Castilhos (1), surgiu no sopro dos regionalismos, porém com uma adaptação, com a busca de um modelo. Cezimbra Jacques (2) já organizara os grêmios gaúchos para manter lembranças da vida campeira. Manifestações desse tipo já haviam surgido no Uruguai. Paixão Cortês (3) fora tocado pelos rodeios e estilo de vida dos caubóis norte-americanos. Todas essas influências resultaram na escolha da “estância tradicional”, a propriedade privada, o espaço da elite agropastoril e escravocrata, como o ethos, o mito fundante regional.

O modelo foi se especializando até se transformar em uma militância sistêmica. Todos os elementos simbólicos populares, hábitos, costumes etc., foram inseridos e reinventados, inspirando criações, no universo de uma ampla estância imaginativa. O próprio estado, multicultural e multirracial, aos poucos, foi sendo consagrado como uma versão simbólica de estância. Ao se apropriar dos elementos reais e simbólicos da população, dando-lhe novo sentido, o Tradicionalismo transformou-se em verdadeiro sugadouro. Entretanto, essa motivação genuína da população, de etnias, ao mesmo tempo que foi direcionada para o civismo obediente e regulador, inseriu no âmbito do Tradicionalismo as tensões contraditórias entre as manobras reguladoras do poder dirigente e os modos de vida regionais, das culturas locais, das visões e concepções sobre o que é ou deveria ser a cultura do Rio Grande do Sul. De outro lado, como partiu de mosaicos de folclores, culturas populares, danças, cantigas, espaços gauchescos, buscou estilos onde esses aspectos já existiam ou estavam em desenvolvimento superior – Uruguai e Argentina. A cópia e a imitação também fizeram parte. Entretanto, ao contrário do viés cívico, governamental, militaresco e disciplinador do Tradicionalismo, no Prata, o “folclore” possui convicção e se constitui no espaço “dos paisanos” e anda sempre ao arrepio do poder; cultua, inclusive, um certo ódio ao “milico”. Bem ao contrário do Rio Grande, onde o Tradicionalismo acabou se transformando em uma cultura de caserna, de inspiração de um positivismo desilustrado, dominado, em especial, pelos oficiais brigadianos, funcionários públicos e pela direita culturalmente limitada, líderes de legiões de “artistas” do lumpesinato.

Na fase espontânea, lúdica e telúrica do Tradicionalismo foi colocada uma canga disciplinadora, controladora, de obediência. Esse processo começou a ocorrer por volta de 1967, com a criação de um órgão centralizador. Ou seja, a fração militante conservadora do Tradicionalismo expressou a sua hegemonia na instituição do MTG como instrumento da Ditadura Militar. Nessa arreada, o Tradicionalismo transformou-se na “cultura oficial” do Rio Grande do Sul como expressão do poder e assumiu seu aspecto militantemente ideológico. Terminava qualquer inocência em seu interior.

A trilha sonora da tortura foi a música tradicionalista. Todo preposto da ditadura no Piratini teve um lacaio pilchado para servir o mate, assar o churrasco e animar a tertúlia. Cada quartel construiu seu galpão crioulo como eco desse tempo obscurantista, de tortura, de morte, de repressão e de controle popular, especialmente da alma e da sensibilidade.

Os “tradicionalistas” de alma castelhana (os subversivos estrangeiros), invariavelmente, foram proscritos.

IHU On-Line – O Manifesto contra o Tradicionalismo, do qual o senhor é um dos signatários, afirma que o Rio Grande do Sul é multicultural e que é ilegítimo e alienante todo movimento que impede e dificulta os desenvolvimentos culturais e estéticos. Reprimir os novos grupos da música popular gaúcha que se modernizaram e trouxeram novidades para dentro dos Centros de Tradições Gaúchas é, também, uma forma de dificultar o desenvolvimento de novas culturas e movimentos?

Tau Golin – Com o passar do tempo, o MTG conseguiu estabelecer um “cânone”. Ao mesmo tempo em que oficializou procedimento, exerce uma vigilância e um controle nos aspectos artísticos e comportamentais. A motivação fundamental é o poder, o exercício e a demonstração de estabelecer o que pode, o que é “certo” ou “errado”. Patrão tradicionalista é um ente da aparência, da pós-modernidade, tem que parecer-ser. No campo da moralidade, uma de suas bandeiras mais preconceituosas, com aqueles discursos mofados sobre a “família”, do fio de bigode, do combate à opção sexual, é de uma hipocrisia vexatória. Ora, sabe-se que o seu próprio universo é formado pelas condições humanas; a rigor, esses discursos podem ser tapados pelo poncho tecido por suas folhas-corridas.

O núcleo fundamental do Tradicionalismo, do qual deve emanar o comportamento e a cultura, é a estância simbólica. A arte da elite era preferencialmente palaciana. Admitiam-se somente as expressões “aceitas”. Na verdade, a oligarquia real era universal. O Tradicionalismo não é sequer uma extensão cultural da oligarquia, de cuja propriedade retirou seu ícone fundante. Ele é uma leitura equivocada, uma adoção ilusória de sua rusticidade. Sequer abagualada e xucra, pois isso poderia remeter para a insubmissão. Sequer o “gaúcho” possui um lugar na estrutura do CTG. Ali se encontram o peão, o agregado, o posteiro, o capataz, todas as figuras obedientes, atreladas ao mando da sede, do núcleo inquestionável do poder do patrão. Gaúcho remete à insubordinação, ao não confiável, à marginalidade, à ameaça à propriedade, ao comportamento incontrolável e, inclusive, abagaceirado.

IHU On-Line – Em suas pesquisas o senhor encontrou gaúchos que se utilizavam de adereços junto com a veste tradicional, algo que o MTG repreende e afirma ser algo apenas de uso feminino. Como o senhor vê essa “recriação” da tradição feita pelo MTG, sendo que a tradição e costumes eram diferentes? Por que o gaúcho que usa adereços é tão mal visto pelo MTG?

Tau Golin – O MTG é um movimento de defesa de uma moralidade conservadora, de uma idéia pastoril cristã de família. Tudo em sua volta se movimenta, cria novos comportamentos, novos modos de vida. Quase todo patrão ou tradicionalista possui filhos roqueiros, metaleiros, de opções alternativas, gostam e vivem de MPB, cultura latino-americana etc. Muitos tiram o brinco da orelha, desfazem as tranças, quando vão para o CTG. Outros negam a escolha dos pais. O tradicionalista é um ser fragmentado. Ele vive duas vidas. A real e a simbólica-militante, os espaços concretos e os da ritualidade. Ele vive em pesadelo constante. Entretanto, o fundamentalismo de muitos, invariavelmente, descamba na irresponsabilidade, inclusive com seus filhos. Sempre tem um piquete de estúpidos para agredir pessoas “fora do padrão”, para achar que brinco ou outro adereço é coisa de “viado”, de afeminado, alguém que precisa apanhar para aprender, o método da estupidez para converter à obediência – a chamada pedagogia da doma usada com animais.

Historicamente, os gaúchos usavam brincos, tranças, adoravam adereços, enfeitavam-se. Entre eles encontravam-se marinheiros e cavaleiros. Tinham diversas procedências e etnias. Trouxeram para a pampa, inclusive, muitos elementos da navegação. Na América, amestiçaram-se culturalmente, indianizaram-se e acaboclaram. Ainda hoje, na península ibérica e em outros lugares do mundo, quando você encontrar um navegador com um brinco de argola na orelha, comece a desconfiar que em sua frente pode estar um indivíduo admirável, que praticou uma travessia excepcional, que enfrentou mares tenebrosos. É por isso que, quase sempre, você vai encontrar brinco em orelha de “homem feito”, alguém com muita experiência e valentia, o qual recebeu aquele “adereço” por merecimento. Muitos colonos que vieram para o Rio Grande do Sul procediam de regiões européias em que o brinco era “coisa de homem” e aqui o ostentaram.

Mas, como disse, CTG não é lugar de gaúcho; é lugar de patrão e peão, de gente obediente, conformada e militante da ordem, mesmo que o sistema trate o povo como gaúcho e excluído.

IHU On-Line – De que forma o manifesto pode mobilizar o MTG? Como está sendo a recepção dele por parte dos gaúchos?

Tau Golin – O manifesto defende princípios republicanos. Ele esclarece à população que o MTG é uma entidade privada, mas que, colocando-se como “cultura oficial”, invadiu instituições, domina espaços do governo e possui reservas vitalícias nos órgãos públicos. Além disso, arrecada considerável verba pública para os seus eventos. Invadiu a escola para converter os alunos ao seu culto, quando a educação republicanamente é o espaço do saber, do estudo. É por isso que o manifesto postula por uma CPI na Assembléia Legislativa. Defende audiências públicas: no Conselho de Educação, para discutir pedagogicamente a falência da escola pública provocada pelo cetegismo; sobre a influência das diretoras-prendas nos planos de ensino e a patronagem sobre os professores, com o desejo de transformá-los em preposto de CTG; no Conselho de Cultura, onde existe a aprovação de enorme quantidade de projetos de lazer e turismo tradicionalista para captação de verbas pela LIC. Além da usurpação direta, o MTG tem diversos subterfúgios para sua arreada das verbas e espaços públicos.

Por essas questões, o manifesto é, em seu conjunto, a defesa da cidadania, da democracia, das relações republicanas e da liberdade cultural. No extremo, representa um movimento da ilustração contra o fundamentalismo. Sua intenção é não deixar que um movimento de caráter privado usurpe as esferas públicas e atropele o civismo, ocupe o imaginário e substitua as identidades pelo “tipo gauchesco clubístico citadino” e o “legitime” como modelo regional hierarquicamente superior às contribuições das demais etnias. O manifesto, de certa forma, é sucedâneo a uma enorme literatura e posturas públicas já conhecidas, e que vem conseguindo fortalecer as particularidades culturais inter-regionais, demonstrando que o MTG é um movimento militante ideológico-cultural, cada vez mais fundamentalista e intolerante, que procura converter-se em um poder dentro do Estado, invariavelmente pressionando, quando não elegendo governantes.

Muitas pessoas já se deram conta isso. Quase todas têm uma experiência para relatar. O próprio gauchismo tem procurado formas alternativas de associação, sem a necessidade de reproduzir a estrutura da estância escravocrata. Reúnem-se em piquetes, em centros de cultura gaúcha, em ciclos, em grupos etc. Cada vez é mais forte a percepção que tradicionalista não significa necessariamente gaúcho; e, muito menos, rio-grandense. Aliás, no mundo real da campanha, nas regiões de hábitos autênticos do povo concreto, mestiço, caboclo, interétnico etc., há um sentimento (e muitos o verbalizam) de que o tradicionalista, ao menos estilisticamente, é a carnavalização do gauchismo. Tem forte componente da indústria cultural, não necessita da experiência da territorialidade. Ele é uma agremiação estilística que, no seu limite, chega ao fundamentalismo. Escreveu alguns manuais encíclicos e pretende convertê-los em práticas litúrgicas da vida.

IHU On-Line – A cultura que o MTG defende é uma forma de retardar o desenvolvimento social do Estado?

Tau Golin – Sem dúvida. O “orgulho gaúcho” é completamente inútil para protagonizar a modernidade, apesar do próprio tradicionalista ser um ente pós-moderno, no sentido que postula uma identidade pela imagem e pelo culto ritualístico. A sua energia e militância, no entanto, cria um cenário dogmático. A população é inicializada cada vez mais cedo em seus rituais, na arregimentação de seu calendário de eventos, submergindo em uma cotidianidade cetegista escapista, numa incompreensão do mundo em que vive. Os espaços sociais são tensionados pela vontade aculturadora do tradicionalista militante, que luta para fazer do outro a sua projeção pilchada. Em sua catequese postula pilchar o Rio Grande e, no limite, o mundo. Atua em todas as esferas da existência, em especial, nas de formação de “consciência”. Ele tem uma idéia de história baseada em heróis tutelares (em conseqüência, os heróis do estado, no geral, são senhores de escravos), tem uma concepção artística fechada, possui uma forma de religiosidade – o cristianismo pilchado e conservador. Na verdade, a missa crioula é uma ode ao mundo estancieiro. A propriedade foi sacralizada. O latifúndio, por sua extensão, é ressignificando como a “estância do Céu”; Deus, como o “Patrão celestial”; São Pedro, como o “capataz”; Jesus Cristo, como o “tropeiro” que andou pela terra mangueirando o rebanho; e, Nossa Senhora, como a “prenda” disso tudo.

No conjunto, pode-se dizer que o MTG fortalece o dogmatismo. Essa “dureza” de pensamento se evidencia na sala de aula, na política, na cultura. Não existe nada pior do que o ignorante com “certezas” imutáveis. Praticamente é um insensível com o outro. O mundo é uma pirâmide, com o patrão no topo; e ele, psicologicamente, junto… O fundamentalismo é uma totalidade. No seu último congresso, o MTG adotou o projeto de fundar as suas próprias escolas de ensino fundamental e médio, além de uma universidade. É simplesmente assustador para a vida republicana.

IHU On-Line – O senhor acha que o MTG vive ainda como se estivéssemos sob o regime militar?

Tau Golin – Ele é o herdeiro de uma ordem ditatorial e transformou-se no desaguadouro do pensamento e das práticas de caserna. Digamos que existe uma disputa constante no interior do Tradicionalismo, porém o dogmatismo, o positivismo desilustrado e o espírito de caserna são hegemônicos e derrotou completamente aquele espírito paisano, de sociedade civil, que ainda se encontra no seu interior. Hoje, o MTG, ao menos no Rio Grande do Sul, possui um forte impulso militaresco; as pilchas já não são mais expressões da vestimenta civil, pois os CTGs andam uniformizados; e os piquetes parecem grupos militares ou de milicianos, invariavelmente ocorrendo escaramuças entre eles, em disputas inócuas, mas de intensa mobilização.

IHU On-Line – O gaúcho, mesmo o que não tem forte ligação com o movimento tradicionalista, comemora veementemente uma guerra que perdeu, a Guerra dos Farrapos. Como o senhor vê esse tipo de cultura inserida em nossa história?

Tau Golin – A Revolução Farroupilha é muito mais complexa e interessante do que as versões consagradas pelo Tradicionalismo. A noção dominante foi criada pelo movimento republicano na campanha contra a monarquia. Na luta pela proclamação da República, os farrapos foram usados como “exemplo” de um pretenso passado republicano. O autoritarismo castilhista colocou-se, por fim, como herdeiro dessa tradição, e, por meio da difusão educacional, disseminou-se a falsa visão de que os farrapos eram republicados e que o povo lutou ao seu lado contra o Império. Essa visão foi retomada no grande evento de 1935, comemorando o seu centenário. Na década seguinte, a primeira geração de tradicionalista escolheu entre os caudilhos farroupilhas os seus heróis e os disseminaram como lumes tutelares do Rio Grande, homens exemplares a serem seguidos.

Entretanto, com o desenvolvimento dos estudos históricos, comprovou-se que os farroupilhas constituíam três frações diferentes e, muitas vezes, antagônicas; não eram republicados, exceto uma minoria com idéias ainda muito vagas. A fração militar e majoritária, liderada por Bento Gonçalves era monarquista. Além disso, a maioria dos proprietários, inclusive os da terra, e o povo rio-grandense lutaram pelo Império, pela brasilidade. Ou seja, nunca houve um levante do Rio Grande do Sul contra o Império. Na verdade, o que ocorreu foi uma guerra civil; e, nela, os farrapos eram minoria e, além de tudo, não eram republicanos. A tão cantada República Rio-Grandense vivia quase sempre sobre carretas e em povoações ocupadas temporariamente.

Contra a historiografia universitária, o Tradicionalismo e a imprensa consagram uma ilusão, uma impossibilidade de conhecer o passado em sua riqueza e complexidade.

IHU On-Line – O manifesto pode, ou deseja, unir forçar e formar um novo movimento baseado na verdadeira história étnica e cultural do Rio Grande do Sul e, com isso, aceitar a inserção de novas culturas dentro dessa história?

Tau Golin – O manifesto é um texto de reflexão e denúncia. Seu núcleo elaborador não tem caráter militante. Ele se refere a uma violação da vida republicana pelo Tradicionalismo. Portanto, diz respeito às instituições do Estado e da sociedade civil. Do ponto de vista cultural e educacional, indica as implicações que a hegemonia e a influência do MTG possui nessas esferas, a sua forma seletiva, normatizadora, e excludente de elementos constitutivos da historicidade rio-grandense, além de pretender controlar a liberdade artística. Acima de tudo, o manifesto demonstra como um movimento de interesse particular, em um viés fundamentalista pilchado, opera no Rio Grande do Sul, selecionando, consagrando e reconhecendo as manifestações que comungam com sua visão de história, de cultura; e faz um alerta máximo: a destruição do patrimônio rio-grandense. Em suma, o manifesto condena a militância do Tradicionalismo para tutelar o povo, demonstrando a insustentabilidade histórica de sua pretensão usurpadora, ao mesmo tempo em que defende um processo de inclusão na historiografia e na cultura de participação e representação republicana de todos os segmentos sociais.

Em suma, o MTG é um problema contemporâneo e não da história.

Notas

(1) Colégio Julio de Castilhos: Localizado em Porto Alegre, esta instituição de ensino é uma referência para a capital gaúcha. Conhecido como Julinho, a entidade formou autoridades políticas e personalidades importantes para o Rio Grande do Sul.

(2) Cezimbra Jacques: Considerado o primeiro historiador santamariense. Foi professor do Colégio Militar de Porto Alegre e lutou na Guerra do Paraguai. Participou da criação da primeira academia de letras do Rio Grande do Sul e foi um dos fundadores do Partido Republicano do Estado. Criou Grâmio Gaúcho de Porto Alegre, considerada entidade precursora da cultura gaúcha. É autor de “Ensaio sobre os costumes do Rio Grande do Sul” e “Assuntos do Rio Grande do Sul”, entre outros.

(3) Paixão Cortês: Formado em agronomia, o folclorista é um dos personagens mais importantes do movimento tradicionalista gaúcho, o MTG. Em 1947, junto de Barbosa Lessa inicia uma pesquisa para recuperar traços de cultura local. Foi o modelo inspirador para a estátua do Laçador, em Porto Alegre.

Fonte: http://www.consumidor-rs.com.br/rs2/inicial.php?case=2&idnot=12124 – 16/10/2010

mai
02

Mas é MUITA CARA-DE-PAU!!

Preste bem atenção no cartaz abaixo. Veja como a contra-reação à defesa dos animais se baseia, obviamente, na falácia do ambientalismo (como se animais fossem ETs). Clique para amplicar.

fur is dead

abr
28

vegan

O cozinheiro Sergio Eduardo Costa Santos, o ‘Sergico’ vai ministrar a Oficina de Alimento Integral e Orgãnico, para preparação de pratos veganos na ótica da alimentação funcional e vitalícia. O evento acontece em duas opções de datas, nos dias 15 ou 29 de maio, no Casarão do Arvoredo – rua Fernando Machado, 464, Centro histórico de Porto Alegre, das 10h às 15h.

Serão preparados bolo de aipim com legumes, rolinhos de beringela, esfiha de brócolis, pesto, saltie de inhame com arroz e suco regenerador e energizante. O investimento é de R$ 50, e as inscrições devem ser feitas pelo amazanga@gmail.com.

abr
23

Fotos: VAL

Atividade buscou conscientizar a população quanto ao uso de animais em testes

por Marcio de Almeida Bueno, jornalista

Do começo da manhã até o final da tarde deste domingo, 17 de abril, a Vanguarda Abolicionista realizou em Porto Alegre um ato contra a vivissecção e testes em animais. O local escolhido foi o Parque Farroupilha, onde aconteciam shows gratuitos de Kleiton & Kledir e Nei Lisboa. Banners mostrando a verdade nua e crua atraíram a atenção dos passantes, e quase três mil impressos foram distribuídos, inclusive uma listagem de produtos e marcas que não testam animais.

vanguarda
Ativistas distribuíram milhares de panfeltos em ato alusivo ao Dia Internacional Contra a Vivisecção

A ação teve caráter de protesto mas também de orientação, já que era grande o número de pessoas que desconheia a existência ou a motivação para uso de animais pela ciência e ensino, se os animais estavam vivos durante os testes, e o que fazer para se posicionar contra essa realidade. A atividade rendeu ainda uma entrevista da bióloga Ellen Augusta, membor-fundador da Vanguarda Abolicionista, para o prorgrama Sintonia da Terra, sobre o uso dos animais em laboratórios. A movimentação de populares foi tão grande que, casualmente, uma pessoa que trabalhava com animais em pesquisa foi abordada pelos ativistas. Um outro passante disse “gosto muito (dos animais), são deliciosos”, ignorando que o assunto tratado não era consumo de carne.

VAL
Fluxo de pessoas foi intenso durante todo o domingo

Galeria de imagens

val

ellen augusta
vanguarda
vanguarda abolicionista

abr
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Foto Marcio Almeida BuenoO jornalista gaúcho Marcio de Almeida Bueno tem 35 anos e é ativista pela libertação animal há quase 20 anos. Desde 1995 é vegetariano e em 2005 tornou-se vegano. Sua principal colaboração no ativismo é colocar o Jornalismo a favor da causa. Marcio editava fanzines já na década de 80 e teve produção destacada individual e em parcerias na literatura, nas artes gráficas e na música. Publicou seus cartuns nas revistas Geraldão e Níquel Náusea, e apresentou programas de televisão e rádio. Hoje, além de trabalhar para diversos veículos impressos, online e assessorias de Imprensa, é sócio de uma empresa de Jornalismo. Na militância pelos direitos animais, escreve e colabora em diversos veículos de comunicação e sites, e coordena ações cidadãs em favor dos animais, como a luta pelo fim das carroças na capital gaúcha. Participa do grupo Vanguarda Abolicionista, que mantém um blog sobre protestos e anti-especismo, e é um dos idealizadores do site Provegan, que vai mostrar o lado prático do dia-a-dia vegano. É também criador do Falência Fraudulenta, versão digital do fanzine que mantém deste os longínquos anos 80. Para conhecer suas criações musicais, basta acessar a página de seu novo projeto Game Beat Robot, com cinco músicas de electrorock pró-libertação animal, ou assistir ao videoclipe do seu primeiro single que está disponível no YouTube: . De Porto Alegre, onde mora com sua esposa Ellen, que é bióloga e também vegana, Marcio falou com exclusividade à jornalista Cynthia Schneider, da ANDA, sobre abolicionismo animal no Jornalismo, na música e na cultura geral, e o papel das novas tecnologias no ativismo.

ANDA – Como você iniciou a militância pela abolição animal?

Marcio Bueno - Eu lembro de publicar sobre o tema no meu fanzine quando eu era adolescente, ou pós-adolescente, nos anos 80. A inquietação veio da infância, aquela coisa de notar que tinha alguma coisa errada nisso tudo. Eu acho que o impacto de determinadas imagens, cenas, te abre um horizonte. Por uma série de isenções, de conforto, as pessoas mantêm um certo padrãozinho – “Nem vou pensar em coisas ruins, porque o dr. Lair Ribeiro mandou”. A situação dos animais é algo que eu nunca tinha me dado conta. Há bons exemplos de imagens impactantes que podem fazer uma pessoa despertar. Tem quem diz “ah, aquela cena dos golfinhos no filme Terráqueos não sai da minha cabeça”. No meu caso, lembro de ter recebido um flyer que tinha três fotos: uma de um gato com eletrodos no cérebro, outra com focas sendo espancadas e a terceira com raposas mortar penduradas, e o texto dizia ‘Mortas em nome da moda’. A chamada do flyer era ‘Massacre dos Direitos Animais’. Eu coloquei isso no meu fanzine e foi um choque para as pessoas. Espera aí cara, existe isso? Sim, existe isso numa forma real, não só do tipo “que pena”. Aquilo implicava saber que alguém direciona sua preocupação e a sua vida em relação a isso. E eu fui estudar sobre isso e num estalo de dedos eu virei vegetariano. E foi no ano em que eu larguei o Direito e tinha entrado na faculdade de Jornalismo. O curioso é que a Famecos era famosa, era o lugar mais liberal do mundo, e mesmo ali eu era visto como um ET. Eu era punk, não bebia, não fumava e o pior de tudo: não comia carne. E os comentários das pessoas era de que eu ainda por cima não estava preocupado com aquilo, como se um dia fosse existir um remorso em cima disso. Descobri que todo mundo lá era tão conservador como quem estava fora de lá. Via que os robozinhos do sistema estavam lá dentro e achava possível fazer com que as pessoas começassem a pensar diferente. Aí eu fui intensificando a ideia. Hoje, na minha empresa de Jornalismo, um dos sócios foi meu professor lá e outros dois foram meus colegas, com quem eu me dava na época. E eles me contam que as pessoas diziam que eu era um rol das excentricidades. Eu acabei virando uma referência outsider. Com isso tudo eu vi como era fácil ser diferente – dentro dos padrões, mas não de uma maneira que implicasse uma alteração na realidade e uma mudança em assuntos sérios. Colocar um piercing, fazer uma tatuagem, qualquer idiota faz. Atualmente eu acho que só os idiotas estão preocupados com isso. O difícil é você estar no sistema e não estar nesta agenda do sistema, estar subvertendo. E atualmente eu participo de vários grupos ativistas, escrevo para vários sites e blogs, tenho uma empresa de Jornalismo e faço assessoria de Imprensa para ONGs.

Anda – Com esta postura você acabou convencendo muita gente?

Marcio Bueno – Eu acho que sim. Você acaba agregando pessoas ao seu redor que te convidam porque tem valores que você carrega e que determinadas pessoas não têm. As pessoas viam que se eu era maluco o suficiente, lia autores doidos, ouvia aquele tipo de música, era músico, tinha uma banda doida e me divertia, então era porque isso era legal, tinha um significado interno. E quem ia pesquisar isso aí, via como era uma coisa transgressora. Foi assim que isso acabou atraindo as pessoas. Até hoje eu deixo claro que gosto disso, boto o pé na porta, já agredi muita gente porque tem muita gente que não tem jeito mesmo. Acho que uma boa ideia pode influenciar muita gente. Eu já fui em churrasco, comi o meu tomate e o alface, óbvio que eu falei na boa contra o churrasco. Fiz as pessoas rirem e larguei bolas de pingue-pongue nas idéias delas. Sempre vai ter um cara que vai descobrir: “- Pois é, ele está certo. A gente que é contraditório”. Neste último churrasco que eu fui tinha um senhor que depois, bem baixinho, foi me dizer que era vegetariano. Eu fui ver e ele estava comendo cebola e tomate, tomando cerveja, e eu nem tinha percebido.

ANDA – Quais as suas principais ações para a conscientização sobre o direito dos animais?

Marcio Bueno - A primeira é escrever. Como jornalista eu produzo vários materiais, a maior parte artigos em jornais locais, sites e blogs. Também tem coisas que eu faço como assessor de Imprensa, como a assessoria para um artigo ou para uma entidade já estabelecida como é o caso da Sea Shepherd. Tem o lado do lobby pelos direitos dos animais, que tem funcionado, trabalhando de forma ‘invisível’. Por último tem também a panfletagem, que é o lado mais divertido, mais lúdico da história. Eu não tenho simpatia pelos protestos, porque acho que o resultado é menor. Você tem mais um efeito midiático forte do que um resultado. Se o protesto der sorte de ter a Imprensa presente pode dar certo. Já vi protesto em que a Imprensa estava e no dia seguinte não saiu nada no jornal. Ou seja, o efeito foi zero. Eu prefiro a panfletagem. Vão se aproximar de ti dois tipos de pessoa: os interessados e os chatos. Os interessados vão trocar ideias, vão pegar o endereço, vão buscar material. Às vezes é aquela pessoa que está com meio caminho andado. O chato vem te contrapor e te dá a possibilidade de argumentar, para que tu possa fazer a pessoa sair dali com alguma coisa que ela nunca pôde ouvir de maneira clara. Porque a maioria das pessoas simplesmente liga a televisão e ouve um lado da história, totalmente parcial, e vai criando um conceito em cima daquilo. Temos feito isso regulamente, mas na penúltima vez a gente foi detido pela Brigada Militar. Eu sei que a gente está fazendo uma coisa subversiva, e quem é que vai defender a gente? E tem também a pouca participação dos voluntários e simpatizantes da causa. A gente faz a convocação e no fim vamos só nós, o núcleo de sempre, que atua em várias frentes. Pelo Orkut todo mundo confirma, mas ninguém aparece. E não abordo qualquer um. Por exemplo, numa manhã a gente sai com dois mil panfletos, entrego todos, mas só para pessoas que a gente saca que vai render alguma coisa.

ANDA – Como percebe a influência das tecnologias da comunicação no movimento de libertação animal no Brasil hoje?

Marcio Bueno – Eu acho que as melhores iniciativas no Brasil têm sido a junção de pessoas de diferentes pontos que tenham idéias semelhantes, que são separadas por posicionamentos geográficos, e não ideológicos, e que possam produzir informação. Como jornalista digo que estamos na era da informação, de produção midiática. Quando mais pessoas produzem informação sobre uma coisa, eleva o status dela. Me parece que se pode ter uma massa de informação na Internet, mas não apenas na Internet. Eu hoje posso tomar conhecimento de uma coluna incrivelmente abolicionista que foi publicada por alguém lá no norte do país. É algo que não se via há dez anos atrás. E 20 anos atrás menos ainda. Parece que no passado a coisa estacionou muito na ecologia. Só que a ecologia gera as aberrações como o caçador conservacionista, a carne orgânica. A questão é saber ler a informação: foto, texto, notícia, vídeos e afins circulando entre as pessoas com a intenção de que tomem conhecimento e saibam que aquilo existe e agregue um pouco de saber em relação àquele assunto. É lento o processo. É como a educação. Mas está se falando sobre isso, estão tirado o assunto de dentro da gaveta. É como o abuso de crianças. Antigamente não se falava sobre isso, era proibido falar que havia abuso de crianças. Pedofilia na Igreja? Não se comentava. Hoje estas informações oxigenam as ideias e fazem as pessoas refletir e ver com outros olhos. No momento em que as informações circulam eu posso ver as coisas de uma forma diferente. Uma mudança de 0,01% em alguém já é alguma coisa. Em alguém que tenha, por exemplo, visto o caso do boi retalhado vivo. O cara tem a possibilidade de pensar que é chocante porque o boi estava no asfalto. Mas espera aí, retalhado vivo, dentro de quatro paredes, num abatedouro, aí é legal? Aí o filho pergunta e o pai tem que ter uma resposta. A informação circulou de A para B, pois antes estava estagnada em A. Sei que não podemos fazer com que B faça algo ou tome esta bandeira, mas circulou a informação e eu vou fazer isso de forma repetida. O casamento dos homossexuais foi repetição, repetição, repetição, até que se aceitou. Com o direito das mulheres foi assim também. Se Martin Luther King tivesse dito: “- Eu desisto, voltemos todos para a senzala e vamos usar só o banheiro destinado aos negros”, ainda aceitaríamos a escravidão. Mas não foi isso. Foi o contrário. A gente não está conseguindo agora grandes resultados, mas vai conseguir por repetir.

Os fluxos de informação são o que está valendo. É óbvio que precisa ser dado o passo adiante. Aí entra a minha crítica de que as pessoas que recebem uma só informação acham que isto já vale. Um exemplo disso é o Orkut. Lá todo mundo diz que é ativista, mas não faz coisa nenhuma. O que fazem é ficar o dia inteiro no Orkut, bater boca, olhar e passar adiante fotos grotescas e assinar petições. Petições online não têm valor. As fotos grotescas eu já vi, se não tiver algo a acrescentar, o valor é zero. E qual é a diferença de um ativista ou um sádico olhando essas fotos? Uma piada que a gente usa aqui é que todo mundo quer ser ‘heroizinho vegano’. Mas a gente marca uma simples panfletagem e nenhuma dessas pessoas vai. Todas têm um motivo para não ir. Acho gozado isso. Eu tenho quatro empregos diários como jornalista, mais os eventuais. Eu tenho contas para pagar, mais o aluguel. Mas essas pessoas moram com os pais, e não conseguem. Eu fico pensando nessas pessoas que recolhem uns gatinhos na rua, mostram as fotos para todo mundo e dizem que só podem ficar até amanhã com os bichos. É uma coisa assim: “- Eu peguei, mas vocês aí, o resto do mundo, virem-se porque só pode ficar até amanhã”. Uma coisa tão simples que é abrigar dois gatinhos até conseguir um lugar. Não vou dizer que a pessoa deveria adotar, mas até providenciar um lar. É como o exemplo de fumar maconha. O sistema permite que a pessoa se sinta rebelde, se sinta transgressora, num momento em que ela está ali fumando um baseado. Mas aquilo ali está deixando a pessoa travada. Tem uma letra do Racionais MC’s que tem uma passagem que fala isso. É sobre um cara que era da turma e acabou se embedando tanto e usando drogas que o sistema o travou, e agora “ele não causa mais perigo”.

ANDA – O Estado do Rio Grande do Sul é um forte adepto do abate e consumo de animais e produtos desta origem, atividade incentivada e considerada como tradicional no contexto de CTGs – Centros de Tradição Gaúcha e junto à cultura do churrasco. Até as construtoras usam frequentemente como diferencial o fato dos empreendimentos imobiliários terem churrasqueira social ou na sacada dos apartamentos. Como o movimento abolicionista lida com a questão cultural no estado? E qual o lugar das novas tecnologias da comunicação neste debate?

Marcio Bueno – Eu acho que culturalmente o especismo não é mais forte no Rio Grande do Sul. Em vários casos pessoas que são a favor da exploração de animais não tem ligação nenhuma com CTG, por exemplo. Aqui em Porto Alegre tem condomínio que tem até rodeio dentro. Tem veganos a favor das carroças, e outros que ficam cheios de dedos para condená-las. O que está pautado pela mídia são algumas atitudes como o ecoedifício, o uso de sacolas retornáveis, a economia de água. O resto continua a mesma coisa. É preciso fazer com que as pessoas saiam deste mundo de conforto e alterem alguma coisa tendo uma vida ética também, não somente aquilo de ficar diferente no final da vida.
A novidade da ferramenta de informação que é a internet talvez esteja nas mãos de pessoas não habilitadas. Saber ler e escrever e fazer coisas legais com o computador não te faz um comunicador nem um informador. As pessoas não sabem direito o que fazer e daí têm um comportamento de massa. Na época do ICQ, todo mundo usava, depois veio o MSN, o Orkut, MySpace, Facebook. Houve a explosão do blog, a fase dos fotologs, é algo do tipo: “- Eu tenho uma senha para entrar na Internet. O que tem de legal aí para passar o meu tempo?”. E aí a gente joga com uma produção de informação rasteira. E no momento em que é uma produção em nome de um suposto movimento, vira piada, tem uma perda de conteúdo. Uma coisa é você ler um artigo como eu li ontem dos autores Heron, Luciano e Tagore, no site da ANDA sobre abolicionismo animal, que resume o começo, meio e fim da coisa toda, de forma bem acessível. Aquilo ali tem um efeito, um impacto, que pode ser levado a sério. Você pode mostrar para um intelectual, uma pessoa mais velha, uma pessoa com formação, estudo, e ver se a pessoa não acha que tem uma coerência. É diferente de pegar uma besteira como acontece nos blogs. No Orkut, por exemplo, uma pessoa que é vegetariana há 6 meses não leu nada e discute com todas as pessoas do mundo na base do ‘copiar e colar’ e acha que está fazendo um grande serviço. Mas qual a credibilidade disto tudo? Para quem olha de fora vai achar que é tudo feito por uma gurizada com os hormônios à flor da pele, que discute, bate boca, tem os erros de Português mais grosseiros e não se entende. Mas quando teve uma manifestação aqui, não foi ninguém. Eu lembro quando a gente fez um protesto na frente de um circo e foi pouca gente. O dono do circo, para debochar da gente, disse assim: “- Podem ficar aí. Quando eu estive na Argentina teve duzentos. Vocês estão em trinta”. E realmente, você vê uma foto de uma passeata no Chile, é uma coisa absurda, com muita gente. Eu já organizei protesto em que convoquei todo mundo, e foram três pessoas. Sobre os blogs, as pessoas simplesmente copiam. Se eu digitar o nome de um texto eu vou encontrá-lo reproduzido e replicado centenas de vezes. Se tu quer uma lista de restaurantes vegetarianos, esta lista está replicada centenas de vezes. Ninguém produz conteúdo, só copia. O erro que está em um blog está nos outros, até os erros de digitação.

ANDA – Qual o pior responsável pelos “baldes de sangue”, tortura e crueldade animal, conforme um texto seu publicado no site da ANDA? E qual o principal papel que cada um deve assumir para parar a exploração animal?

Marcio Bueno – Acho que o pior responsável é a pessoa que se propõe a fazer o papel do robozinho do sistema, a fazer o que a sociedade quer que se faça. A pecuária acaba sendo nada mais nada menos do que a cozinha da sociedade. A pecuária e tudo que está ao seu redor existe em função disso. O nosso presidente aparece lá, todo vestido de branco dentro de um frigorífico, entregando um prato de mortadela para as pessoas. Pára e pensa: eu pago impostos que estão lá para serem dados a um frigorífico. Se tu falar para qualquer pessoa ela vai dizer que gerou empregos diretos. Como criticar uma coisa como a pecuária, que gera emprego, gera desenvolvimento, e que entrou na hipnose coletiva? As pessoas ainda têm orgulho. Mas as pessoas sentem orgulho, não o pecuarista – ele está dando risada. As pessoas que jamais viram uma vaca de perto são as que mais defendem a pecuária. Você vai em um CTG, o que é aquilo? É apenas uma celebração da exploração da mão-de-obra. Todo mundo ali é operário da pecuária, em nome de uma pessoa que seria o dono da fazenda, o dono do gado. O resto do pessoal são os operários, não tem nem onde morar. Historicamente, era isso. O gaudério, o gaúcho, morava andando a cavalo, não tinha nem casa. E mesmo assim, na hora de tocar, cantar, escrever uma poesia ou fazer uma manifestação artística, fazem um elogio a esse sistema. Então seria um equivalente a um operário, na hora de fazer sua poesia operária, fazer uma exaltação ao patrão. Eu não vou entrar na teoria marxista nem na luta de classes, mas é curioso isso aí. A pecuária se apropria não só dos recursos naturais ao redor de si. Toneladas de cocô de porco vão acabar em algum arroio, não tem como mandar para algum outro planeta. E depois as pessoas vão ao açougue e pagam por aquilo. E depois quem critica é que é radical, “porque aquele cara está trabalhando”, “ele comprou a terra”. Me parece que porque a coisa é tão errada foi necessário convencer as pessoas, sutilmente, subliminarmente, que tudo aquilo está certo. Eu acho que é como a escravidão. Achavam normal, fazia parte do cotidiano e era estranho ser contra. Todo mundo concordava para não parecer louco e ser enforcado. Com a pecuária está sendo igual. O governo diz: “- Vou dar dinheiro para que a pecuária funcione, a gente vai derrubar a Amazônia. Se não for lá, vai ser em outros lugares, a gente vai ter campos cheios de bichos e caminhões, mas é para uma coisa boa, que é para depois vocês pagarem para comer um bom bife”. Um exemplo da colaboração da mídia com este sistema foi um jornal gaúcho que publicou uma bela matéria falando sobre um protesto contra a Expointer. Mas no final havia um comentário de um dirigente do setor produtivo, dizendo que isso era uma besteira, porque foi a proteína da carne que evoluiu o ser humano e foi a pecuária que promoveu o desenvolvimento do Rio Grande do Sul. E a gente vê esse discurso repetido até por um motorista de táxi, por exemplo. Ele se dispõe a defender o pecuarista. O sujeito não defende o cara que faz computadores ou que é construtor de prédios, ou o cara que é engenheiro. Se tu falar alguma coisa contra a pecuária a pessoa bate no peito com orgulho. “- Ah, a minha família veio de tal cidade, tenho muito orgulho, sou gaúcho”.

ANDA – Você é músico também. Poderia comentar sobre o papel dos animais na cultura musical brasileira?

Marcio Bueno - Eu nunca usei a música como ferramenta para qualquer coisa relativa aos animais. Recentemente, há dois meses atrás, me deu um clique e eu comecei a fazer música em vários projetos, em diferentes estilos musicais. Num deles, que é em som eletrônico, eu comecei a usar somente temática de libertação animal. Teve uma boa resposta. Tem videoclipe no You Tube, página no Myspace. Entendi que posso falar sobre qualquer coisa, então pensei em elaborar letras até sarcásticas, porque a voz é meio robotizada, com esta temática. Eu iria levar isto para pessoas que jamais ouviriam e que vão ouvir por causa da música, e vai ter a letra ali. Claro que sempre vai ter gente que vai odiar a música, mas a temática vai passar adiante. O importante é passar a ‘palavra’, não importa a maneira. Esta foi a primeira vez que usei a música para o ativismo.
Sobre o tema geral na cultura musical, houve um tempo em que eu trabalhei numa FM no Interior do Estado. E obviamente eu tive brigas homéricas com o apresentador do programa de música gauchesca. Ele saiu do programa, e até apagou as vinhetas dele. Hoje a gente é desafeto. Um determinado diretor não queria que ele tocasse música gauchesca que tem piada de duplo sentido, pois o programa dele era um programa bom, ele botava a boa música nativista. Mas às vezes ligava alguém e pedia uma meio baixaria, algum sucesso gauchesco da época. Certa vez tivemos uma reunião sobre se deveríamos ou não tocar este tipo de música. E eu disse que não via problemas nisso, o que eu vetaria seriam duas músicas, uma dizia “…quebrando queixo de potro”, numa referência à maneira de domar o cavalo. Isso é coisa de quem acha que o animal nasce domado e já vira amiguinho do cavaleiro. Isso vale até para quem diz: “- Ah, eu gosto de montar”. O cavalo passa por uma coisa meio mecânica. As pessoas pensam que é como um gatinho, que você bota no colo, ele cresce. É mais uma hipnose… A outra música tinha “…tirando sangue na espora”. Bom, ele ficou vermelho. A minha sorte é que um dos diretores da rádio era agrônomo, e explicou que já existia a doma ‘racional’, não se espancava mais o cavalo, então não tem mais porque tocar uma música com orgulho de “tirar sangue na espora”. Outra coisa que me surpreendeu foi descobrir que muitos músicos são caçadores. A pessoa tem uma enorme sensibilidade para aquele momento, fora dali, não. A coisa inverte. Daí eu começo a pensar: “- Qual é a sensibilidade que ele tem?”. Ele tem a sensibilidade para colocar a coisa num padrão para botar a mão no teu bolso. Os exemplos não são poucos. Pink Floyd, Eric Clapton, Dire Straits, Metallica. Na hora de relaxar vão pegar na espingarda, vão matar um urso. Isto sem falar nas bandas que pregam a zoofilia.

ANDA – O Jornalismo hoje não deveria assumir um papel ético quanto à vida dos animais em nossa sociedade? Um Jornalismo ético é possível?

Marcio Bueno - Seria possível se, todas as vezes que na grande Imprensa saísse uma matéria sobre um cidadão que fez um protesto, invadiu um rodeio ou fez um manifesto contra um circo que estaria promovendo alguma violência contra os animais, dessem a versão completa. Uma matéria grande com duas fotos saiu numa página de jornal daqui sobre a Expointer. O título era ‘Começa o protesto contra a Expointer’. A reportagem dizia que o protesto estava encaminhado, e lá no final havia o depoimento do tal representante do setor, dizendo que tudo o que os ativistas falaram era bobagem. Na minha visão, o outro lado deveria ser apresentado em todas as matérias. Então, se teve um protesto contra a Expointer e há quem tenhadireito de dizer que aquilo é certo ou errado, no final, todas as matérias sobre a pecuária, no final, deveriam ouvir quem é contra a pecuária. Em nome da isenção jornalística, o outro lado deveria sempre ser ouvido, senão é propaganda pró-pecuária. A partir daí estaria movimentando a coisa para uma informação mais justa ou equilibrada. Se a Imprensa não fizer isto, está torcendo por um lado. Houve uma época em que o jornal Zero Hora incluía um box no final das principais matérias que se chamava ‘Para seu filho ler’ ou algo assim. Eram frases didáticas e objetivas como ‘o trânsito é uma maneira de organizar quem anda de carro’ ou ‘a multa é para quem faz uma coisa errada no trânsito’. Mas num caso que repercutiu no Brasil inteiro como o do aluno Rober Bachinski que brigou na Justiça para ter o direito de não participar de aulas com animais na Biologia da Ufrgs, aquele box para as crianças lerem colocou uma visão totalmente parcial. Dizia que ‘um estudante está brigando para não ter que fazer isto ou aquilo. Mas quem quer cuidar de bichinhos tem que antes mexer no bichinho senão não vai saber como fazer’. Ninguém fez qualquer referência como ‘na Europa não se usa animais’, ‘em outros países mais avançados já se usam métodos alternativos que já se mostraram mais eficazes’, ‘isto é antiético porque a gente pode fazer determinadas coisas sem que seja abrir coelhos e jogar fora’. Em vez de realmente buscar os dois lados o jornal se limitou a dizer ‘olha, filho, o guri aqui está esperneando, mas tu não esperneia na tua aula’ e ‘a professora manda, não faça diferente, senão tu vai sair aqui no jornal e as pessoas vão rir de ti’. Então, cadê a isenção jornalística? Cadê o espaço dado para o outro lado, em todas as matérias? Saem cadernos especiais sobre suinocultura e agropecuária. Mas no final lá deveriam colocar que a suinocultura é responsável pela destruição ambiental e quem está comendo um delicioso medalhão de porco deve saber que tal e qual coisa está sendo demolida, e ainda mostrar fotos. Mostra o escoadouro, mostra como é a mortandade de peixes por causa da água que sai do chiqueirão. Deveria ter um box contando que um porco permanece a vida inteira sob condições às quais uma pessoa iria presa se fizesse com seu cachorro. Essa pessoa sairia na capa da Veja como sádica. Agora, porque é com um porco passa a ser um produtor, recebe incentivos, tem orientação da Emater. Nenhum jornalista faz isso. Então cadê a isenção? Para que se tenha um Jornalismo ético é necessário que se tenha o outro lado. E o que tem que se considerar também é que a Imprensa é feita pelos operários da Imprensa. E eles só tem o direito de publicar o seu próprio material, atualmente, na Internet. Mas eu não desanimo. Tem aquela música do Belchior, “amar e mudar as coisas me interessa mais”. Eu quero ser a ferramenta certa para que eu possa, com um bom argumento, mudar o que está girando ao meu redor.

ANDA – Você é colaborador e colunista da ANDA. Como vê a atuação da Agência de Notícias dos Direitos dos Animais?

Marcio Bueno - Acredito que a ANDA é a pioneira na tentativa de organização da informação pró-animais, e de denúncia das atividades contra eles. Pois há centenas de notícias, fotos, relatos, depoimentos, artigos, colunas, vídeos e afins que cruzam a Internet, que são publicados ou transmitidos nos demais veículos de comunicação, e obviamente a clipagem é a única maneira de ordenar esse tsunami caleidoscópico em que vivemos. Para que não se perca nem diminua seu valor a zero no dia seguinte, como acontece na grande Imprensa. Não deixar que a informação seja tratada por quem não tem qualificação técnica para isso, apesar das boas intenções. Com isso, ‘se fazer levar a sério’, que talvez seja o ponto principal em relação à questão do posicionamento ético frente aos animais. A maioria das pessoas ignora que haja uma idéia sobre tratar os animais diferente das cercas, pauladas, chicotes, chutes, tiros, arpões, pedradas e marretadas tradicionais. Tal como o Talibã não saber o que fazer com as mulheres, por exemplo. E do restante, mesmo entre os mais esclarecidos, pensar os animais de forma positiva se resume a ‘ter um cachorro’ ou ‘gostar de natureza’. Uma coisa hippie, datada, molenga e que mantém os animais no mesmo patamar de escravos suscetíveis à vontade dos humanos. Então a importância é apresentar ideias de gente séria, com currículo e histórico pessoal, para que a Imprensa veja – digo Imprensa como primeira a abrir os olhos e reproduzir os sinais de fumaça – que existem idéias melhores, mais corretas, mais justas, sem demagogia, utopia nem ‘volta às cavernas’. Aos poucos o repórter de um grande jornal vai perceber que ele pode ter uma fonte para sua matéria CONTRA a pecuária, e que esta fonte é um jurista respeitado, com renome e com argumentos sólidos. Provavelmente ele sai da redação já orientado – pelo editor ou por sua própria noção – a buscar um maluquete ‘que não come carne’, com barbicha, chinelo franciscano, movido a incenso e outros clichês. Mas vai encontrar alguém como ele, um jornalista, um publicitário, um profissional liberal, uma filósofa, uma bióloga, que com discurso coerente vai apresentar as informações que ele procura, e provavelmente muitas que ele desconhecia. Como fazer tudo isso chegar ao grande público? Vamos marretar com conteúdo constante, sempre com qualidade. Um dia vai ter monografia/TCC sobre a ANDA, escrevam o que estou dizendo. Vivemos em uma sociedade midiática, e a ANDA pode ser a torre de resistência frente ao bombardeio diário do lobby da carne, dos laticínios, dos ovos, do couro, da moda, dos testes em laboratório, dos rodeios e circos, da caça e da simples pedrada em cachorro no dia-a-dia das cidades. Tenho uma coluna semanal que me permite jogar tijolo em quem está fora dessa torre, para que acorde ou para que passe alguns dias com um galo na cabeça, mesmo. Com o maior orgulho de alinhar ombros com alguns totens da
libertação animal do Brasil. Tenho certeza que a maioria dos demais colunistas pensa o mesmo. O brabo disso é que eu me obrigo sempre a produzir textos com a maior qualidade e concisão possíveis, pois ‘o páreo é duro’… epa!

Fonte: ANDA

abr
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sintonia da terra

No programa ‘Sintonia da Terra’ que vai ao ar nesta quinta-feira, 21 de abril, um dos temas será o protesto contra vivissecção que a Vanguarda Abolicionista realizou no último domingo, 17. Haverá entrevista sobre o uso de animais em pesquisas e experimentos médicos, cosméticos e psicológicos com a bióloga Ellen Augusta Valer de Freitas, membro fundadora da Vanguarda Abolicionista. Ainda no programa, entre outros assuntos, a dica cultural de Sarah Motter sobre o livro ‘Jaulas Vazias’, de Tom Regan.

O Sintonia da Terra vai ao ar às 10h5min pela Rádio da Universidade – 1080 AM, em Porto Alegre, e pelo site www.ufrgs.br/radio. Reprisa logo em seguida, às 11h, em www.radioestacaoweb.com. A produção e apresentação é das jornalistas Danielle Sibonis e Ana Paula Knewitz, do Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul. Mais informações em www.ecoagencia.com.br.

Fonte: Vanguarda Abolicionista

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