Carne Nunca Mais
Pé-na-porta contra os robozinhos do sistema

Nem amor, nem gostar

por Juliano Zabka

Quando o outro não tem um “rosto”, como sentir algo de destacada importância?

Nesse caso, defino o “rosto” como alguém de proximidade tal a ponto de mobilizar nossos mais fortes sentimentos nas diversas ocasiões da vida. O pai e a mãe ou a pessoa que amou e cuidou, o irmão ou irmã, o parceiro e a parceira, o amigo, entre tantos outros, nos casos das relações agradáveis e chamadas de saudáveis.

“Rosto” em uma definição arbitrária para o momento. Impossível não ser, além de estar, de certo modo, me apropriando do termo que serviu a Emmanuel Levinas – o que não significa que saiba algo sobre ele ou aplique aqui o mesmo sentido.

Essa parece ser uma das nossas “pobrezas mais miseráveis”. O outro ter de ter rosto. O imperativo de o outro ter um rosto para que o conjunto de minhas decisões, sejam elas ações ou omissões, passe a considerá-lo nas conseqüências dessas decisões.

Desde que o outro sem rosto não faça parte dos “meus”, dos meus rostos, caso lhe acontecesse algo de mortal, por exemplo, não poderia esperar de mim sentimento avassalador. Na hipótese, e em geral, ainda que abalado, poderia esperar algo raso e muito passageiro. Experimentamos isso diariamente através dos noticiários que trazem ao nosso conhecimento várias das situações que nomeamos de desgraças. Se o que escrevo fosse algo muito longe das nossas vivências, não suportaríamos tamanho sofrimento ininterrupto. E acredito que isso não configura frieza nem qualquer outro atributo com intenção pejorativa.

Contudo, seria difícil de concordar, aceitar e dar suporte a qualquer ação que resultasse num absurdo para a integridade do outro sem rosto. O outro não precisa ter um rosto, não necessita ser um próximo para que eu me oponha, que eu desaprove e não contribua nem aceite que lhe coloquem em situação indigna. Não preciso ter sentimento algum por ele para defender e lutar de alguma maneira para que não lhe recolham de sua dignidade e autonomia mais cara. A não ser por um sadismo doentio, defenderia o contrário. E se assim fosse, não poderia protestar quando aplicassem em mim e aos meus próximos aquilo que aprovo que seja aplicado aos outros – aos outros sem rosto.

Os produtos oriundos de animais inevitavelmente carregam um simbolismo e realidade repulsiva em sua “gênese”, pois são provenientes de uma das indústrias mais perversas e abomináveis em nível planetário. Quem duvida, basta querer ver. Mas, em geral, “nossas barrigas não tem olhos nem ouvidos”. Talvez teriam se os animais submetidos fossem aqueles com rosto, os próximos como os que fazem parte de algumas famílias: os cães, gatos, cavalos entre outros. Repito aqui o que chamo de nossa pobreza mais miserável: o outro ter de ter um rosto – ser próximo – para receber alguma consideração. Os que estão fora desse círculo de considerações ficam entregues àquilo que poderíamos chamar de nosso pior pesadelo.

É através da aquisição e consumo desses que ousamos chamar de “produtos” que aprovamos e financiamos essa “maquinaria de transformação de coisa viva em coisa morta”. É dessa forma um tanto banal e corriqueira que nos tornamos cúmplices e coniventes com a incessante e permanente exploração de nossos semelhantes que tiveram o azar de ser como são, apesar de sua biologia, sensações e emoções terem um rosto tão familiar.

Fonte: ANDA

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