Carne Nunca Mais
Pé-na-porta contra os robozinhos do sistema

maio
02

Menino de sete anos morre ao treinar para rodeio no RS

O pequeno laçador Guilherme de Oliveira Jacques, sete anos, morreu no domingo, dia 29 de abril, depois de cair da égua em que costumava montar em André da Rocha, RS. O menino deixou cair a rédea e, quando tentou pegá-la, perdeu o equilíbrio e caiu – a égua teria se assustado e disparado, com Guilherme preso ao estribo pelo pé, sendo arrastado por 200 metros. Socorrido com diversas fraturas, o menino não resistiu aos ferimentos.
Filho de José Alberto Jacques, patrão do CTG Tropeiro Lagoense, Guilherme treinava laço para competições na região. A égua havia sido adquirida pela família dois anos atrás. Acostumado ao lombo dos cavalos desde os dois anos de idade, o jovem peão era conhecido pelos prêmios que conquistou como laçador.

Estudante do segundo ano da Escola Municipal Doutor Manoel Vieira da Fonseca, o menino seguia os passos do irmão mais velho, Jean, e do pai, acostumados a colecionar troféus em rodeios. O enterro foi na segunda-feira, dia 30 de abril, em André da Rocha, com acompanhamento de tradicionalistas de toda a região. A família Jacques tinha por tradição participar todos os anos dos rodeios de Veranópolis, promovidos pelo CTG Rincão da Roça Reúna.

Fonte: Jornal Panorama Regional

maio
01

Canal Futura fala sobre veganismo

maio
01

Mensagem de 1º de Maio – Dia do Trabalhador

carroça

mar
06

Diário Gaúcho: jornalismo consciente é isso aí!

salsicha

mar
05

Programa do Canal Futura com a Vanguarda Abolicionista vai ao ar nesta terça, 6/03

Foto: Ellen Augusta Valer de Freitas
Marcio de Almeida Bueno

Nesta terça-feira, 6 de março, o Canal Futura leva ao ar o programa ‘Vale Mais’ com a Vanguarda Abolicionista. Os membros-fundadores Marcio de Almeida Bueno e Ellen Augusta Valer de Freitas deram depoimentos no Mercado Público de Porto Alegre, acompanhados da nutricionista Gisele Severo, mostrando produtos. Mais tarde, a reportagem esteve na residência do casal, falando sobre veganismo e a militância do grupo ativista. A matéria vai ao ar às 12h30min, com reprise às 19h, pelo canal 32 da Net ou 30 na parabólica/UHF. O site do grupo é www.vanguardaabolicionista.com.br.

fev
28

Emissora que lambeu as botas da ditadura só podia faar isso…

rede globo

fev
11

Chicote Nunca Mais socorre cavalo atropelado na RS-020


Fotos: CNM

“Fomos chamados às 2h da madrugada do dia 10 pela Polícia Rodoviária Estadual para socorrer um cavalo atropelado na RS-020, em Gravataí/RS. Depois de exaustivamente tentar atendimento na Prefeitura Municipal de Gravataí, sem sucesso, e pelo sofrimento do animal, a PRE optou por nos ligar”, relata a presidente da ONG Chicote Nunca Mais, Fair Soares. Haviam diversos cavalos soltos na pista, o que culminou com um atropelamento. O animal teve politraumatismo e fratura de crânio, com lesão encéfalica.

“Tentamos os veterinários da Vigilância Sanitária, Departamento de Trânsito e Fundação do Meio Ambiente, sem nada conseguir. A Marcia foi para o local assim que recebeu o chamado, e encontrou o eqüino com muita dor e gemendo muito”, explica Fair. Foi convocado então o veterinário da Chicote, Franciso Gusso, que eutanásiou o animal depois de sedação, conforme protocolo humanizado.

O acidente quase vitimou a esposa do condutor do veículo envolvido, que estava na carrona. “Em Gravataí são atropelados pelo menos dois cavalos por dia. É muito grande o número de animais soltos ao longo das rodovias – tanto na RS-020 quanto na RS-118, que estão cheias de vilas de carroceiros. Caso não haja uma intervenção séria e firme do Executivo, em breve teremos mais vítimas. Não só animais, que não sabem se cuidar, mas também pessoas que estão nos veículos. Fica aqui registrado o alerta”, avisa Fair Soares.

dez
23

Cães de guarda

Uma noite dessas, fui despertado por um uivo sofrido – certamente de um cachorro, pensei – e, da janela do quarto, deu para perceber no terreno da construção ao lado, onde durante o dia operários se movimentavam, o vulto solitário de um “pitbull” – ou um “fila brasileiro”, podia ser. Seu porte era assustador, mas seu olhar, assustado. Constatei de manhã, pela placa indicativa colocada entre os fios da cerca elétrica, que o animal que me acordara era de uma dessas empresas que vendem segurança pela utilização de cães. E para ali algum deles era conduzido, sempre à tardinha, para vigiar à noite, enquanto perdurasse a construção. Telefonei para o número indicado na placa reclamando do barulho, e o atendente esforçou-se por me justificar alguma coisa que não interessava, mas, no essencial, disse que trocariam o cachorro por outro. De fato, trocaram, mas o outro também sabia uivar, que, afinal, é como todos os cães costumam externar o seu sofrimento. Com essa minha nova argumentação, prometeram outro “pitbull”. Mudariam para uma cadela que, alegaram, tinha outro temperamento. Repetiram-se os uivos, e então resolvi ocupar minha insônia para descer até junto ao muro divisório dos terrenos. Subi num banquinho e – que olhar assustado o dela! – joguei-lhe um naco de costela que havia sobrado da janta. Sacudiu o rabo e correu para abocanhar o petisco. Não ouvi mais som algum, até que adormeci e despertei com o movimento dos funcionários da empresa que vieram buscá-la pela manhã, como habitualmente faziam. Na noite seguinte, surpresa. Ao invés dos uivos costumeiros, latidos. Que é como os cães costumam externar seu instinto de comunicação, seja para alertar, seja para aproximar. No nosso caso, foi isso. Lá desci eu para junto do muro, dei-lhe uns nacos de queijo, e a noite recobrou seu silêncio. Por algum tempo, essa relação – cada qual do outro lado do muro, é claro – perdurou até que a obra acabasse.

Nunca soube de alguém que ela houvesse hostilizado por pretender invadir o terreno, e até duvido que isso fosse possível. Cães costumam se afeiçoar ao que reconhecem como o “seu” território. Só nele desenvolvem suas características, a fidelidade ao dono e a hostilidade ao invasor. E a confirmar isso, o comportamento de minha “vizinha” ocasional, ali, sozinha, num ambiente desconhecido, mais denotava carência e medo, mais provocava pena do que temor.

Pois, ao projetar-se a proibição dessa atividade – empresas vendendo segurança pela utilização de cães –, nossa cidade se humaniza um pouco mais. Sem o exagero daquele ministro do Collor que levava seu cãozinho no carro oficial para o banho semanal na pet shop, à justificativa de que também ele era um “ser humano”. Mas com o mínimo de respeito a um direito que todos os animais têm: o de não serem sacrificados exclusivamente ao egoísmo de nossa utilidade.
* Jayme Eduardo Machado, EX-SUBPROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA – Zero Hora, 23/12/2011

dez
22

O agradecimento dos animais pelo Natal – parte 2

natal

por Marcio de Almeida Bueno

Agradeço aos Três Reis Magos que perpetuaram a tradição de presentear nesta época do ano. Só assim eu pude sair daquela gaiolinha solitária, em frente a um vidro onde tanta gente passava e me apontava. Havia outros irmãozinhos, pequenos como eu, mas todos sozinhos em suas gaiolas. Me restava comer, dormir e fazer sujeirinhas ali mesmo, que depois o moço limpava. Agora, alguém me pegou no colo, me encheu de perfume e colocou um laço de fita vermelho no meu pescoço. Na casa nova onde cheguei, minha presença foi motivo de festa, e virei o centro das atenções, com sorrisos, brincadeiras, cafunés. Espero que seja assim para sempre. Espero que algum dia eu possa conhecer a minha mãe, e receber atenção também dela, porque eu nem lembro de se passamos algum tempo juntos. Espero que ela esteja bem.

Obrigado Jesus por ter me destinado a uma família de humanos, que me tratou bem. Cuidei da casa em troca da renovação da água do meu pote, e o direito de comer até o final todas as sobras de comida que alguém me jogava, uma vez por dia, religiosamente. Agora estou um pouco velho, meio doído, mais pateta do que sempre fui considerado ser. Ouvi reclamações nos últimos tempos. Esses dias fui levado a um passeio, no carro da família. Fomos para longe, vi lugares que nunca imaginei ver. Abriram a porta para eu tomar um ar fresco, numa estrada bem movimentada. Foram embora antes que eu pudesse perceber, tentei correr atrás mas a idade já não me permite. Estou aqui há alguns dias esperando, porque acredito que vão voltar para me buscar. Passam tantos carros, tantas famílias iguais à minha, alguns olham, mas ninguém pára. A sede é muita aqui neste acostamento, antes eu latia para os carros que eu acreditava serem da minha família, mas faltam forças. Sigo esperando aquelas pessoas conhecidas voltarem para me buscar e eu poder ir para casa. Eu tenho fé.

Obrigado bom Deus pela floresta e toda a natureza que foi o meu lar desde que nasci. Correr livre não tem preço. Mas, nos últimos tempos, ouço muito barulho, vejo humanos e máquinas fazendo limpeza na floresta. Parece que é tudo em nome do progresso, porque quem mora lá longe precisa das coisas que existem aqui na minha casa. Mas acho que as máquinas estão exagerando, pois muita floresta já não existe. Lugares onde eu dormi, comi, esperei a chuva pasar, agora é só chão, sem árvores para subir ou fazer sombra em dias de calor. Estamos todos indo para o outro lado, pois está perigoso ficar aqui. Nesses lugares onde não existe mais floresta, reparei que há animais diferentes, todos iguais e com chifres, comendo o que há no chão o dia todo. Talvez a gente estivesse ocupando muito espaço, e esses irmãos novos precisassem de lugar para ficar. Eu cedo o meu espaço, mesmo triste pela mudança, porque sei que os humanos estudam muito, e sempre sabem o que é certo, o que nós não entederemos jamais.

Obrigado Nossa Senhora, que um dia usou seu manto para envolver seu filho que nascia, e também quando ele morreu. Eu nem conheço meus filhos, mas dei minha própria pele para envolver e aquecer as costas e os pés de tantos humanos de quem não sei o nome. Vivi um bom tempo só comendo, até o dia que um caminhão veio nos buscar, depois tudo foi confuso e assustador, mas atribuo isso à minha incapacidade intelectual. Vi que outras iguais a mim eram penduradas e a pele era gentilmente retirada, já que os humanos não têm proteção e precisam da minha pele, que é grossa e resistente. Acho que pude recompensar quem me deu comida e espaço durante tanto tempo, ofertando um couro que eu já não mais vestiria, pois a morte já me levara a pastar nos campos longínquos onde habita o Nosso Senhor.

Muito obrigado Jesus pelo meu nascimento. Só acho que a minha mãe não gostou de mim, pois logo eu fui retirado de perto dela. Essa é uma dor que não esqueço. Devo tê-la feito chorar, como um dia você fez sua mãe Maria chorar. Eu ainda ouvi seu choro ao longe, e tenho certeza de que ela está na mesma fazenda que eu, mas não nos deixam nos ver. Agora eu fico parado em um lugar desconfortável, onde mal posso me mexer, e não posso nem deitar para dormir. Meu arrependimento é grande. Gostaria que intercedesse e pedisse que a minha mãe me perdoasse do que quer que eu tenha feito. Acho que já me desculpei, e quando este castigo terminar eu poderia tornar a vê-la, pois sei que mãe e filho devem estar sempre juntos, enquanto este for pequeno. Não sei falar a língua dos humanos, então quando eles se aproximam, eu só tenho o meu olhar. Eles dão risadas – o final do ano é sempre uma época de felicidade para todos – e dizem que minha carne vai estar bem macia. Eu não sei o que isso quer dizer, e prefiro não pensar nisso agora. Prefiro fazer força e lembrar dos poucos instantes que vivi ao lado da minha mãe – ela parecia tão grande e forte – em um lugar que, mesmo cercado, dava para esticar as pernas. Aqui eu não posso me virar, tudo é desconforto. Espero, sinceramente, que a ‘carne macia’ que os humanos falaram signifique a minha liberdade. Se eu pudesse escolher, ficaria comportado em uma manjedoura, sem o castigo de ficar fechado e imobilizado. Peça, Jesus, para a minha mãe me perdoar logo.

Deixo aqui minha gratidão a todos os anjos, pois nada mais honrado a um ser do que que poder abrir mão da própria vida em função da felicidade de outros. Quando nasci eu era tão pequeno, com meus irmãozinhos, e minha mãe era tão grande e gorda, que eu mal via seu rosto. Ali a maioria era grande, mas rapidamente eu tive que ir embora, e não lembro se houve um olhar de despedida da minha gorda mãe. Para onde eu fui, todos estavam de branco. Eu acho que eram anjos, pois colocavam muitos irmãos meus, que pareciam desesperados, para descansar. Ouvi dizer que a câmara fria estava nos esperando, mas eu não queria passar frio. Queria o calor da minha mãe. Queria o cheiro dos meus irmãozinhos de volta – onde estava, só havia cheiro de sangue, pois alguém devia ter se machucado muito. Poderiam ser médicos todos esses que estavam de branco. Enfim, obrigado a todos eles, pois nesta noite tão especial me deixarem descansar por sobre uma mesa bonita. Há velas, risadas e abraços. Eu acredito, do fundo do meu pequeno coração que já não está mais batendo, que eles eram anjos que vieram me buscar.

Fonte: ANDA

nov
11

Daqui a algumas semanas, o Brasil entra na hipnose voluntária do Carnaval

carnaval

out
28

Jornal publica matéria sobre o dia-a-dia de uma vegana de Santa Maria/RS

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vegana

out
28

‘A fazenda do DOUTOR fulano’ etc

pecuraista

out
25

Vai lá e faz

out
15

Estadão: De onde vem o lixo produzido no mundo

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out
15

O sono das galinhas

por Sônia T. Felipe

Na coluna anterior, “Omitir-se de praticar o mal não basta”, tratei não apenas da questão dos deveres negativos e positivos que nos tornam agentes morais responsáveis, mas também dos desdobramentos de nossas ações que envolvem tirar a vida dos animais para satisfação de algum interesse humano. Num cálculo arredondado, para dar uma noção preliminar do erro que cometemos ao matarmos galinhas, porcos e bois para produzir “carnes”, pudemos ver o quanto amputamos da vida desses animais, ao matá-los na sua infância.

Mas o erro moral não se limita ao fato de tirarmos a vida dos animais. Tirar a vida, em alguns casos, pode até não ser o maior dos erros, por exemplo, quando a vida não pode mais ser vivida de forma digna, o que acontece quando um cavalo fratura uma perna, pois seus ossos não se regeneram. Viver atirado ao chão não é vida digna para um ser da espécie equina. Mas o tema da morte digna já tratamos na coluna “Eutanásia”.

Precisamos pensar sobre o erro que cometemos ao tirarmos a vida dos animais para atender nossos interesses gastronômicos, quando estes podem ser atendidos com alimentos de origem vegetal. Temos uma ansiedade imensa por proteínas e gorduras de origem animal. O mercado internacional mobiliza boa parte do dinheiro ao redor do mundo nos negócios da comilança de carnes, leite e laticínios, ovos e tudo o mais que é fabricado usando-se matéria orgânica animal. Mas esse mercado não cresceria, não fosse a demanda humana por tais alimentos. O mercado da carne está sustentado no assassinato em massa dos animais. Uma verdade dolorosa e repulsiva. A verdade não é doce, jamais. Animais são executados no momento mais frágil de sua existência: a infância e adolescência.

Creio que poucas pessoas sabem, de fato, que, ao comerem uma carne bovina assada, estão comendo pedaços do corpo de um animal que nascera para viver de 17 a 25 anos. Mas esse animal foi apunhalado e tirado da vida aos 2 anos. Ao comerem “frango assado”, os humanos não sabem que estão ingerindo pedaços do corpo de um animal que nasceu para viver de 15 a 20 anos, mas foi degolado aos 43 dias de vida. Na coluna anterior ofereci alguns cálculos aproximados, para dar uma noção do quanto de vida foi amputado ao abater esse frango. Ao comerem “pernil” ou “presunto”, os humanos não sabem que estão ingerindo pedaços de um animal que nasceu para viver de 10 a 12 anos, mas foi apunhalado aos 140 dias de vida. Para comer, os glutões humanos amputam a vida dos animais cobiçados. Sim, comemos em excesso, por gula, não por necessidade. Padecemos de excesso de gordura e proteína animais, mal digeridas, porque nosso pâncreas não consegue produzir suficientemente o glucagon, responsável pela digestão delas. Daí as doenças que abarrotam os corredores dos hospitais de macas, nas quais os pacientes são “internados” para receberem drogas que os aliviam dos sintomas de uma dieta maléfica.

Humanos sofrem de ansiedade por alimentos de origem animal. Conforme bem o explica o médico Neal Barnard [fundador do Comitê dos Médicos para a Medicina Responsável, uma ONG que congrega quase 10 mil médicos], em seu livro Breaking the Food Seduction, e a nutróloga Carol Simontacchi, em The Crazy Makers, a fissura por gordura animal é adicção, como o é a fissura por outros aditivos que alteram o estado de consciência. Portanto, ter um forte apetite ou desejo de comer carnes, queijos, sorvetes, chocolates, não é indício de que o organismo está “precisando” dos nutrientes contidos nesses alimentos. É o cérebro que esperneia para obter mais gordura e açúcar, seus dois alimentos preferidos. O fato é que podemos dar a ele gordura e açúcar de origem vegetal. Mas nossa cultura nos induziu a pensarmos que estes não prestam, só os de origem animal.

E, para piorar tal agitação, os comedores humanos ouvem dizer, todo tempo, que “somente em alimentos de origem animal é que existem as proteínas necessárias à saúde humana”. Cada vez mais os humanos querem comer mais carnes, mais queijos, mais ovos, mais alimentos produzidos com matéria animal. E, em seu afã de comer mais e mais matéria de origem animal, os humanos estão perdendo a capacidade de raciocinar sobre a origem dela e, especialmente, sobre a trajetória percorrida pelo animal, do dia em que nasce ao dia em que é abatido. Os humanos estão convencidos de que qualquer que seja o mal infligido aos animais, nenhuma marca fica registrada na memória das células que formam os tecidos dos músculos consumidos, ou das que respondem por suas secreções hormonais: leite e ovos.

Onívoros não se perguntam sobre o sofrimento animal, e ainda menos sobre o direito dos animais à vida longa e saudável. Esse é um direito universal de todas as espécies vivas. Mas achamos que, por terem sido os humanos a pensarem em estabelecer para si tal direito, os animais não devem ser incluídos no âmbito da justiça.

Algumas fêmeas bovinas, suínas e galináceas vivem um tempo maior do que as outras de sua espécie, ou do que a maioria dos machos. Mas o destino que as aguarda não tem similar, quando se trata da crueldade levada a efeito pelo sistema de produção que extrai delas o leite, os ovos ou suas ninhadas, no caso das suínas. Destinadas a produzirem ovos, as galinhas têm seus bicos cortados sem anestesia logo nos primeiros dias de vida. A razão pela qual isso é feito é porque serão forçadas a viver empilhadas e confinadas em espaços exíguos, não mais do que o de uma caixa de sapatos por ave, nos galpões onde viverão por dois a quatro anos, sem jamais saírem para ciscar o chão, receber um raio de luz solar, esticarem as asas, escolherem as amizades, formarem sua rede social, chocarem seus ovos, cuidarem de seus pintainhos. No confinamento total, a única função que exercerão, à revelia de sua natureza, é botarem ovos sem parar, até que a descarga hormonal se esgote completamente.

Volto a eleger um ponto para apresentar cálculos que nos permitem ver com mais clareza o quanto somos cruéis contra os animais, ao amputarmos deles o bem próprio que a vida lhes propicia, ao transformá-los em meros itens do nosso consumo, algo que não é de sua natureza. Nenhum animal nasce para servir a outro.

Pensemos no tempo de vida de uma galinha: de 15 a 20 anos. Desse tempo, se pudesse viver livre, ela passaria umas 10 ou 12 horas por dia, digamos, das seis da tarde às quatro a seis da manhã seguinte, recolhida, descansando sua hipófise dos estímulos produzidos pelos raios solares. Sem a luz do sol, o organismo galináceo inicia a produção do hormônio que leva ao descanso e ao sono. Para cada 15 anos de vida, uma galinha passa, em média, se não tiver sua vida amputada por artifícios humanos, 7 anos e meio descansando. Para isso, ela escolhe lugares protegidos, sem luz e silenciosos. É assim que ela se recupera de um dia de atividade e excitação intensas. Calculando-se por alto, a galinha precisa gastar metade da sua vida para se recompor do estresse que a atividade galinácea diária representa. No sistema de confinamento completo, no qual as galinhas são mantidas como “máquinas de produção de ovos”, não lhes é dado descanso algum. A luz artificial é mantida acesa por até 22 horas diárias. Essa prática hiperestimula a hipófise, que descarrega estímulos sobre o restante do sistema hormonal, fazendo com que essas fêmeas ovulem sem parar. Para garantir que a crueldade de fazer o bicho ficar sob o raio da luz não seja vã, a ração que elas recebem vem preparada para acelerar o processo de ovular ininterruptamente.

Sem dormir, comendo um alimento que não comeria se pudesse escolher livremente do que se alimentar, as galinhas são mantidas na produção, quando muito, algo em torno de quatro anos, ao fim dos quais estão “gastas”. Este é o termo usado pela indústria para justificar o abate delas. Quando cessa a produção hormonal, é hora de serem degoladas.

Se houvessem vivido esses mesmos quatro anos livres, algo em torno de 35.000 horas de vida, teriam passado quase dois anos desse tempo, umas 17.000 horas, em estado de repouso, recuperando as forças para cuidarem de si de acordo com o que sua natureza galinácea requer. Mas, confinadas pelo sistema industrial ovorista, em quatro anos, em vez de terem descansado suas quase 12 horas diárias, elas são mantidas estimuladas pela luz artificial por até 22 horas diárias, o que significa, para seu cérebro, 10 horas a menos, por dia, de recuperação. Além dessa tortura, são forçadas ao convívio com milhares de outras aves, quando em liberdade elas vivem em grupos pequenos, menos de 10 aves por grupo, formado a partir de suas próprias escolhas das melhores companheiras de vida.

Não bastasse terem de viver empilhadas umas sobre as outras, quer gostem ou não do contato físico e da falta de privacidade que isso representa, as fêmeas galináceas são obrigadas a respirarem um ar carregado de amônia, sobrecarregando seus pulmões com infecções. A postura forçada de ovos leva ao prolapso do útero. A galinha não morre com esse prolapso. Ela também não é atendida por um médico, porque o procedimento custa caro. As outras bicam o útero pendurado para fora do corpo. Ela vai morrer de infecção não tratada.

O silêncio, para todo animal, é um condição sine qua non para um repouso tranquilo. Como ter isso em meio a 2.000 ou 10.000 aves em sofrimento contínuo? Impossível. Assim, em estado de estresse crônico, elas se tornam canibais. Para evitar perdas, o sistema queima o bico das pintainhas que serão vendidas para as firmas de ovos. Não nos esqueçamos que a área ao redor do bico de uma ave é formada por uma rede de nervos, garantindo a sensibilidade dos olhos, olfato, auditiva e tátil, sem a qual seu cérebro não poderá receber as informações devidas. A dor da ferida, com a cauterização do bico feita por lâminas de aço ou em brasa e sem anestesia, pode durar semanas… sem analgesia. Esse é o cumprimento de boas-vindas ao mundo, dado pelos humanos às pintainhas que só serão deixadas a crescerem para serem usadas como máquinas de ovos. São ainda bebês, mas é com o bico em ferida que elas devem comer a ração. Basta imaginar como faríamos isso sem dor, se tivéssemos que pegar diretamente com a boca o alimento, sem usar as mãos para introduzi-lo entre os lábios, após termos os lábios cauterizados por uma lâmina em brasa … sem anestesia… sem analgesia.

Um ano de vida, seguindo o padrão da espécie, daria a uma galinha algo em torno de 8.000 horas, das quais umas 4.000 seriam aproveitadas para repouso, de preferência no escuro. Um ano de vida no confinamento completo representa as mesmas 8.000 horas, mas, ao contrário da vida no padrão que seria natural a essa espécie, em vez de ter umas 4.000 horas para descansar, as galinhas têm apenas umas 700 horas de descanso, quando o sistema adotado é de iluminação artificial por até 22 horas diárias.

Sabemos por experiência própria o desgaste que nosso cérebro sofre quando não podemos dormir em paz a quantidade de horas requeridas para o restabelecimento do nosso corpo, da nossa mente e da nossa consciência. Sabemos o desconforto que nos assola, o transtorno de humor, a limitação para iniciar ou manter interações sociais prazerosas, quando nos faltam as horas de sono. Passamos mais tempo dormindo, em nossa vida animal, do que comendo ou trabalhando. Mas, quando se trata do sono dos animais, deixamos de lado qualquer consideração moral. E, para coroar nosso atordoamento, ingerimos os ovos que saem dos organismos estressados dessas fêmeas. Amputamos os anos de vida que sua espécie lhes propiciaria em liberdade, amputamos seus corpos e também as funções saudáveis do cérebro e da mente dessas fêmeas. Tudo isso para extrair delas algo que contém nutrientes disponíveis em alimentos de origem vegetal.

É preciso usar nossa racionalidade instrumental, isto é, nossa capacidade de fazer contas, para redefinir os padrões morais que alimentamos ao nos alimentarmos. Temos usado nossa razão instrumental apenas para calcular o quanto podemos tirar dos animais para nosso proveito. Seguindo o dever de não apenas parar de fazer mal a essas fêmeas, mas começar a fazer o bem a elas, está na hora de começarmos a calcular quanto devemos devolver a elas do bem próprio que lhes vem sendo amputado, quando queremos seus ovos para compor nosso prato já farto de nutrientes.

Fonte: ANDA

out
14

Navio: Oito mil animais são transportados vivos para abate na Turquia e Jordânia

Foto: Alan Bastos
navio curral

por Marcio de Almeida Bueno

Como se já não bastasse a pecuária em si, arrancando à força a valiosa matéria-prima dos animais – e da natureza, para aqueles que separam esses assuntos em gavetas diferentes, ainda há o caso dos clientes exigentes, aqueles que querem atendimento VIP. E não o Rio Grande do Sul quadruplicou a exportação de ‘gado em pé’. Vejamos que este é um eufemismo, entre muitos que nos ludibriam no dia-a-dia, e significa gado transportado vivo, em navios-currais, naqueles porıes apertados, abafados e VIPs da maneira que podemos imaginar. Ou assistir no YouTube, quando der coragem.

Em Rio Grande, o porto recebeu o navio Kenoz, que buscou 8 mil ‘cabeças’ – aí eufemismo- e leva agora para Turquia e Jordânia. Antes, o turismo da morte tinha como destino o Líbano, que só aceita animais ‘inteiros’. Desta vez, são animais gordos e já castrados, prontinhos para o abate, que valem – sim, tudo na vida tem seu preço, baby – R$ 2,80 o quilo. Do outro lado do planeta, o pessoal fica esperando já com babador, segurando garfo e faca, como nos cartoons, e salivando pelos futuros churrascos. O chato é que ainda esão vivos, mugindo e cagando, mas quanto a isso o povo de Alah dá um jeito rapidinho.

O fato é que para ter o prazer de curtir a mastiga-lo do começo até o final, desde olhar para um boi gaúcho, vindo do outro lado do mundo, até a puxada de descarga final, tem que encomendar o telegado vivo. A outra razão é o preço mais baixo, que compensa a viagem de quase um mês. Enão são dezenas de decks com as baias dos animais, que vão passar pela experiência de ‘ficar preso em um elevador’ por cerca de um mês, até chegar no Oriente Médio que segue salivando. Os bois que morrem no meio do caminho são sangrados e jogados no mar. Exceto no Estreito de Gibraltar, onde é proibido, então são mantidos no navio até chegar no seu ‘destino’. Um total de 2% dos animais embarcados empacota antes de ter a oportunidade de cagar e ter sua garganta cortada por uma cimitarra. E o cheiro de amônia, resultante dessa mistura de estresse, milhares de animais fazendo ‘número 1′ e ‘número 2′, morte, sangue, pressão, tensão e enjoo, obriga todos a usarem máscara de proteção.

Então cabe aos animais nascerem para que uma planilha de Excel seja preenchida corretamente, e eles vão se prestar até mesmo a serem carga viva em tortuosas viagens intercontinentais, calor e frio e balanço e morte. A morte aqui e agora, ou lá longe, após um êxodo forçado, enchendo de bosta os portos, enchendo as páginas dos jornais domesticados – gado em pé, mas sentado em frente ao Word, e enchendo os bolsos de alguns poucos escolhidos por Alah.

Enquanto isso, os olhos piscam de quem está ali apenas por sua carcaça, vivo o tempo suficiente para a viagem final, o fluxo de sangue que une o RS aos 1001 desertos. A perda de peso – que também entra na planilha – de quem está suportando uma mostra da panela onde vai ser cozido, logo mais, pois há um mercado ávido de vida, com milhões de bocas salivando, e que exigem os caprichos de ver os estrangeiros de quatro patas antes do arroto final, vivos ou já meio zumbis. Não importa se houve dor, se haverá dor, se o confinamento maior é das idéias ou dos não-humanos escolhidos como comestíveis, entre tantos à disposição. Cabe ao homem dar os telefonemas certos, as ordens certas, espremer o gado vivo em um moedor de carne em formato de navio, que entrega lá longe o pré-churrasquinho pelo qual tanto salivam. E todos terão orgulho da exportação de morte, abençoada pelos deuses concorrentes, de continentes diferentes.

Fonte: ANDA

out
14

O que fazer com os peixes? ou ‘Cusparadas & assuntos-tabu’

(Foto: Marcio de Almeida Bueno)
peixe

“Mantêm você dopado com religião, sexo e TV / E você se acha tão inteligente, incomum e livre”
(John Lennon, em ‘Working Class Hero’)

por Marcio de Almeida Bueno

Quando se diz ‘Semana da Pátria’, são dias para homenagear e bater palmas à Pátria, quando é ‘Semana Santa’, significa uma sequência de dias sagrados para os católicos etc. Ou seja, a favor do assunto em questão. Mas quando o Governo Federal promoveu em setembro último a Semana do Peixe, era o contrário. Incentivo ao consumo de ‘pescado’, naquela conversa de vida saudável – termo que abrange de tudo, até ideias opostas.

Mas o ponto é que o peixe – citado aqui para fins de clareza e economia de espaço, já que o material oficial da campanha do Ministério da Pesca incluía camarão, siri e outros ‘frutos do mar’ – ganhou o carimbo de comidinha leve, saudável e não-carne. Já é piada corrente a frase ‘não como carne, só peixe’, ou os autointitulados vegetarianos, por só comerem… aquele animal que vocês já sabem. Peixe não tem sangue, peixe tem sangue frio, peixe não sente dor, peixe tem consciência coletiva, peixe é burro, Jesus comia peixe – todas essas frases-clone são xerocadas de boca em boca, babadas, e entraram na gaveta do senso comum. Quem não der essa resposta na hora da prova, valendo nota, ganha zero da sociedade.

Na obrigação de sempre compartimentar o universo, a humanidade divide os animais entre úteis e nocivos, comestíveis ou não, alvos de amor ou tiro. Essa contabilidade vem desde a Bíblia. Em Levítico, 11, há o trecho “… de todos os animais que há nas águas, comereis os seguintes: todo o que tem barbatanas e escamas, nas águas, nos mares e nos rios, esses comereis. Mas todo o que não tem barbatanas, nem escamas, nos mares e nos rios, todo o réptil das águas, e todo o ser vivente que há nas águas, estes serão para vós abominação. Ser-vos-ão, pois, por abominação; da sua carne não comereis, e abominareis o seu cadáver… Esta é a lei dos animais, e das aves, e de toda criatura vivente que se move nas águas, e de toda criatura que se arrasta sobre a terra, para fazer diferença entre o imundo e o limpo; e entre animais que se podem comer e os animais que não se podem comer”.

O estalo do chicote que chegou até aqui, a fazer doer a bunda dos defensores dos direitos animais, é que temos que lidar com pessoas, ditas esclarecidas, que não comem carne, só peixe. Que jejuam na Sexta-feira Santa, comendo só peixe. Jesus comia peixe. Que se tornaram vegetarianas por consciência, então agora só comem peixe. Que estão preocupadas com questões de ecologia anal, então optaram por comer só peixe. Que já refletiram sobre a – própria – saúde à mesa, então só trituram ‘pescado’ em seus dentes não-carnívoros.

E mesmo entre os que estão na causa animal, poucos pensam na morte dos peixes, a sério. Não a morte como estatística, como violência gráfica, mas o instante da morte. O momento de empacotar para sempre. Pois teoricamente, e bota boa vontade minha nisso, os demais animais para consumo têm um fiapo de consideração legal em relação ao instante da morte – esta situação que está além de nossa vontade, infelizmente. Aviso aos(às) chatos(as) que só conseguem chegar ao orgasmo quando apontam para alguém e gritam ‘Joga pedra na Geni! Ela é bem-estarista! Ela é boa de cuspir!’, que permaneço a salvo de suas cusparadas amargas.

Quando a WSPA – cusp! cusp! – fala de abate humanitário de peixes, é claro que nenhum abolicionista permanece quieto na cadeira. Óbvio, e não precisamos discutir isso, combinado? Combinado. O ponto que levanto é que a maioria das pessoas, essa gente aí fora, mandando mensagem via celular e subserviente por opção – dá risada. Sonoras risadas. Peixes? Ahahahahhaha. E ainda cutuca o cidadão ao lado, para rir também.

Ou seja, os peixes estão entre as ondas e os rochedos, para usar uma metáfora apropriadamente clichê. Nem se pode discutir sua morte – inevitável, já que o mundo não será vegano a partir da semana que vem, infelizmente – nem se pode discutir sua morte. Percebem o paradoxo? Não se pode discutir a morte de peixes, e também não se pode discutir a morte de peixes. Não, eu não escrevi errado, é isso mesmo. Sutil, mas o tabu é esse.

O cidadão médio repassa aos conhecidos aquele clássico email do festival da matança de baleias na Dinamarca, acho que o assunto é ‘Fw: Vergonha Mundial!!! Repassem! Joguem pedra na Geni!!!’. Poucos fazem o hiperlink com a sangueira que foi gênesis de sua refeição. Incluindo o tal peixinho grelhado, recomendado pelos cardiologistas.

Sim, eu sei que baleia não é peixe, nem morcego é inseto, como pensa o Calvin.

Lembrei também de uma recente ‘pescaria de protesto pró-Xingu’ – novamente a ecologia mostrando a língua para os direitos animais. A caça de peixes como algo lúdico, puro, natural, Robinson Crusoé etc. Quero dizer que o especismo vai se enraizando em todas as invaginações do sistema, ao ponto de fazer crer às multidões que peixe ‘não é carne’. E nem mesmo tudo que está na água é comida – não por nojo, mas por peninha. Como quebrar essa muralha que parece crescer junto com o aumento populacional? Como resolver essa equação de saber que os peixes seguirão sendo mortos por asfixia para o consumo humano, mas sem perder o tempo abolicionista resolvendo os nós bem-estaristas?

Não tenho resposta pronta, ainda – até porque no meio dessa guerra da humanidade contra os animais, preciso estar atento a eventuais cusparadas.

Fonte: ANDA

out
05

Boicote os shows de Eric Claplton no Brasil

O guitarrista inglês Eric Clapton é um ferrenho defensor da caça, proprietário de uma loja de caça e pesca na Inglaterra, e até mesmo já organziou shows em prol desse ‘esporte’, junto a outros roqueiros geriáticos (que só dão tirinhos em animais), como Roger Waters e Roger Daltrey. Em sua autobriografia, Clapton diz que os ativistas pelos direitos animais “assistiram a muitos filmes da Disney”, e outros deboches. Em uma entrevista de 2009, ele fala que “caçar melhora as habilidades sociais”.

caça

Em Porto Alegre, o ‘artista’ desceu no Aeroporto Salgado Filho e saiu por uma porta lateral, sem passar pelo saguão – provavelmente, para não ter que se deparar com a exposição sobre direitos animais promovida pela ANDA (Agência de Notícias de Direitos Animais), que está no térreo do aeroporto até o dia 31 de outubro.

O Carne Nunca Mais propõe o boicote aos shows deste músico que só tem ‘sensibilidade’ para a hora de ganhar dinheiro dos fãs.

jul
13

As planilhas de Excel da humanidade ou ‘Animais de barriga cheia, animais de barriga vazia’

por Marcio de Almeida Bueno, jornalista

Queria eu escrever coisas bonitas e fofas sobre os animais. Mas estaria escrevendo sobre uma parte, menor parte, de uma totalidade de seres que estão na Terra já para sofrer, criados e vindos com objetivos pré-definidos, e nada favorável a eles. Nada que os poupa da dor, da opressão e da vida de escravo, barriga cheia ou não.

Queria eu descrever cenas como as que correm pela Internet, de porquinhos se esfregando os focinhos, de porquinhos rosados dormindo entre flores ou em um cesto, bebê de quatro patas e com a mesma inocência, provocando um ‘ai que fófoi’ das pessoas. Mas esse não é o mundo lá fora, de criações em divisórias de concreto, merda sólida, líquida ou gasosa no ambiente, confinamento, retirada de dentes, castração, engorda e ‘vida’ como uma torturante sala-de-espera-de-dentista até o banho gelado final – para concentrar a circulação sangüínea junto ao petio – e a sangria obrigatória. Uma vida de pré-lombinho assado, pré-salame, pré-lingüiça, que nada tem a ver com o Gaguinho ou outros procos antropomorfizados que, quando criança, aprendemos a amar. Eu mesmo passei a minha infância apaixonado pela Miss Piggy, dos Muppets. Enfim.

Queria eu relatar como os pintinhos se protegem sob as asas da mãe, zelosa, imagem clássica que tanto ilustrou livros infantis. Mas o sistema, ajoelhado aos ditames do Dr Moreau, criou o frango, um zumbi-clone-mutação, que vive aos milhares durante poucos dias, para então alimentar – de forma especial, digamos – todo aquele que bate no peito para dizer ‘sou contra os transgênicos’. Aí pede pastel de frango, pois ‘é vegetariano’. Claro, todo mundo aqui tem um tio, e esse tio tem um sítio, e nesse sítio as galinhas vivem soltas e felizes e com pintinhos e não são mutantes. Acredito piamente que há um Sítio da Vovó Donalda na fé de cada um. Enfim.

Queria eu pintar quadros onde os cavalos correm livres o dia todo – “mordendo o vento na cara, bebe horizonte nos olhos, empurra a terra pra trás”, diz a canção ‘Potro Sem Dono’. Quadros como aquelas fotos decorativas onde há cavalos graúdos, longas crinas, gramados guardando sua presença, cavalinhos ainda aprendendo o potencial das próprias pernas. Mas – sempre tem o mas – basta abrir a janela para ver um cavalo miúdo, seco, na sede e Sol na cabeça, puxando a miséria humana sobre carroças. Se não puxa, apanha – essa regra é clara, e só não percebe a relação de poder quem romantiza, sempre, a figura humana, especialmente quanto mais pobre for. Mas o não-miserável cria cavalos, bota para correr no Jockey, faz montaria – acrho bizarro puxar um animal pela boca estando montado nele, e dizer ‘adoro cavalos’ ao mesmo tempo – e se diverte com rodeios, e bota o cavalo para ser veículo de transporte humano em desfile, forças armadas ou passeio. Escravos de barriga cheia, escravos de barriga vazia.

Queria eu escrever uma poesia sobre animais fofos e peludos, mas… não dá para ignorar o que acontece na indústria de peles, nos laboratórios de pesquisa.

Queria eu chamar ao palco todos os demais, submetidos a uma tirania humana que, tal seu poder, até eventualemnte vai se compadecer de tanto sofrimento, mas não abre as algemas. Separa bem o que vai sofrer do que vai ser afagado, o que será alvo separado do que vai ser bibelô, o que é praga afastado do que foi comprado para ser companhia e preencher vazios da vida, o que é ingrediente abundante e vai morrer dentro em breve, do que merece todos os esforços, captação de recursos e projetos governamentais para não morrer. Essa é uma escolha ditatorial humana, um exercício de poder que determina – tal como as barrigas cheias e barrigas vazias de sua própria espécie – quem é ‘polegar para cima’ ou para baixo, conforme o azar que teve na hora de nascer, e o respectivo encaixe nas planilhas de Excel da humanidade.

Fonte: Vista-Se

jun
20

Alguém dê um Prêmio Nobel para esse palestrante do Congresso Mundial da Carne!