Carne Nunca Mais
Pé-na-porta contra os robozinhos do sistema

O sono das galinhas

por Sônia T. Felipe

Na coluna anterior, “Omitir-se de praticar o mal não basta”, tratei não apenas da questão dos deveres negativos e positivos que nos tornam agentes morais responsáveis, mas também dos desdobramentos de nossas ações que envolvem tirar a vida dos animais para satisfação de algum interesse humano. Num cálculo arredondado, para dar uma noção preliminar do erro que cometemos ao matarmos galinhas, porcos e bois para produzir “carnes”, pudemos ver o quanto amputamos da vida desses animais, ao matá-los na sua infância.

Mas o erro moral não se limita ao fato de tirarmos a vida dos animais. Tirar a vida, em alguns casos, pode até não ser o maior dos erros, por exemplo, quando a vida não pode mais ser vivida de forma digna, o que acontece quando um cavalo fratura uma perna, pois seus ossos não se regeneram. Viver atirado ao chão não é vida digna para um ser da espécie equina. Mas o tema da morte digna já tratamos na coluna “Eutanásia”.

Precisamos pensar sobre o erro que cometemos ao tirarmos a vida dos animais para atender nossos interesses gastronômicos, quando estes podem ser atendidos com alimentos de origem vegetal. Temos uma ansiedade imensa por proteínas e gorduras de origem animal. O mercado internacional mobiliza boa parte do dinheiro ao redor do mundo nos negócios da comilança de carnes, leite e laticínios, ovos e tudo o mais que é fabricado usando-se matéria orgânica animal. Mas esse mercado não cresceria, não fosse a demanda humana por tais alimentos. O mercado da carne está sustentado no assassinato em massa dos animais. Uma verdade dolorosa e repulsiva. A verdade não é doce, jamais. Animais são executados no momento mais frágil de sua existência: a infância e adolescência.

Creio que poucas pessoas sabem, de fato, que, ao comerem uma carne bovina assada, estão comendo pedaços do corpo de um animal que nascera para viver de 17 a 25 anos. Mas esse animal foi apunhalado e tirado da vida aos 2 anos. Ao comerem “frango assado”, os humanos não sabem que estão ingerindo pedaços do corpo de um animal que nasceu para viver de 15 a 20 anos, mas foi degolado aos 43 dias de vida. Na coluna anterior ofereci alguns cálculos aproximados, para dar uma noção do quanto de vida foi amputado ao abater esse frango. Ao comerem “pernil” ou “presunto”, os humanos não sabem que estão ingerindo pedaços de um animal que nasceu para viver de 10 a 12 anos, mas foi apunhalado aos 140 dias de vida. Para comer, os glutões humanos amputam a vida dos animais cobiçados. Sim, comemos em excesso, por gula, não por necessidade. Padecemos de excesso de gordura e proteína animais, mal digeridas, porque nosso pâncreas não consegue produzir suficientemente o glucagon, responsável pela digestão delas. Daí as doenças que abarrotam os corredores dos hospitais de macas, nas quais os pacientes são “internados” para receberem drogas que os aliviam dos sintomas de uma dieta maléfica.

Humanos sofrem de ansiedade por alimentos de origem animal. Conforme bem o explica o médico Neal Barnard [fundador do Comitê dos Médicos para a Medicina Responsável, uma ONG que congrega quase 10 mil médicos], em seu livro Breaking the Food Seduction, e a nutróloga Carol Simontacchi, em The Crazy Makers, a fissura por gordura animal é adicção, como o é a fissura por outros aditivos que alteram o estado de consciência. Portanto, ter um forte apetite ou desejo de comer carnes, queijos, sorvetes, chocolates, não é indício de que o organismo está “precisando” dos nutrientes contidos nesses alimentos. É o cérebro que esperneia para obter mais gordura e açúcar, seus dois alimentos preferidos. O fato é que podemos dar a ele gordura e açúcar de origem vegetal. Mas nossa cultura nos induziu a pensarmos que estes não prestam, só os de origem animal.

E, para piorar tal agitação, os comedores humanos ouvem dizer, todo tempo, que “somente em alimentos de origem animal é que existem as proteínas necessárias à saúde humana”. Cada vez mais os humanos querem comer mais carnes, mais queijos, mais ovos, mais alimentos produzidos com matéria animal. E, em seu afã de comer mais e mais matéria de origem animal, os humanos estão perdendo a capacidade de raciocinar sobre a origem dela e, especialmente, sobre a trajetória percorrida pelo animal, do dia em que nasce ao dia em que é abatido. Os humanos estão convencidos de que qualquer que seja o mal infligido aos animais, nenhuma marca fica registrada na memória das células que formam os tecidos dos músculos consumidos, ou das que respondem por suas secreções hormonais: leite e ovos.

Onívoros não se perguntam sobre o sofrimento animal, e ainda menos sobre o direito dos animais à vida longa e saudável. Esse é um direito universal de todas as espécies vivas. Mas achamos que, por terem sido os humanos a pensarem em estabelecer para si tal direito, os animais não devem ser incluídos no âmbito da justiça.

Algumas fêmeas bovinas, suínas e galináceas vivem um tempo maior do que as outras de sua espécie, ou do que a maioria dos machos. Mas o destino que as aguarda não tem similar, quando se trata da crueldade levada a efeito pelo sistema de produção que extrai delas o leite, os ovos ou suas ninhadas, no caso das suínas. Destinadas a produzirem ovos, as galinhas têm seus bicos cortados sem anestesia logo nos primeiros dias de vida. A razão pela qual isso é feito é porque serão forçadas a viver empilhadas e confinadas em espaços exíguos, não mais do que o de uma caixa de sapatos por ave, nos galpões onde viverão por dois a quatro anos, sem jamais saírem para ciscar o chão, receber um raio de luz solar, esticarem as asas, escolherem as amizades, formarem sua rede social, chocarem seus ovos, cuidarem de seus pintainhos. No confinamento total, a única função que exercerão, à revelia de sua natureza, é botarem ovos sem parar, até que a descarga hormonal se esgote completamente.

Volto a eleger um ponto para apresentar cálculos que nos permitem ver com mais clareza o quanto somos cruéis contra os animais, ao amputarmos deles o bem próprio que a vida lhes propicia, ao transformá-los em meros itens do nosso consumo, algo que não é de sua natureza. Nenhum animal nasce para servir a outro.

Pensemos no tempo de vida de uma galinha: de 15 a 20 anos. Desse tempo, se pudesse viver livre, ela passaria umas 10 ou 12 horas por dia, digamos, das seis da tarde às quatro a seis da manhã seguinte, recolhida, descansando sua hipófise dos estímulos produzidos pelos raios solares. Sem a luz do sol, o organismo galináceo inicia a produção do hormônio que leva ao descanso e ao sono. Para cada 15 anos de vida, uma galinha passa, em média, se não tiver sua vida amputada por artifícios humanos, 7 anos e meio descansando. Para isso, ela escolhe lugares protegidos, sem luz e silenciosos. É assim que ela se recupera de um dia de atividade e excitação intensas. Calculando-se por alto, a galinha precisa gastar metade da sua vida para se recompor do estresse que a atividade galinácea diária representa. No sistema de confinamento completo, no qual as galinhas são mantidas como “máquinas de produção de ovos”, não lhes é dado descanso algum. A luz artificial é mantida acesa por até 22 horas diárias. Essa prática hiperestimula a hipófise, que descarrega estímulos sobre o restante do sistema hormonal, fazendo com que essas fêmeas ovulem sem parar. Para garantir que a crueldade de fazer o bicho ficar sob o raio da luz não seja vã, a ração que elas recebem vem preparada para acelerar o processo de ovular ininterruptamente.

Sem dormir, comendo um alimento que não comeria se pudesse escolher livremente do que se alimentar, as galinhas são mantidas na produção, quando muito, algo em torno de quatro anos, ao fim dos quais estão “gastas”. Este é o termo usado pela indústria para justificar o abate delas. Quando cessa a produção hormonal, é hora de serem degoladas.

Se houvessem vivido esses mesmos quatro anos livres, algo em torno de 35.000 horas de vida, teriam passado quase dois anos desse tempo, umas 17.000 horas, em estado de repouso, recuperando as forças para cuidarem de si de acordo com o que sua natureza galinácea requer. Mas, confinadas pelo sistema industrial ovorista, em quatro anos, em vez de terem descansado suas quase 12 horas diárias, elas são mantidas estimuladas pela luz artificial por até 22 horas diárias, o que significa, para seu cérebro, 10 horas a menos, por dia, de recuperação. Além dessa tortura, são forçadas ao convívio com milhares de outras aves, quando em liberdade elas vivem em grupos pequenos, menos de 10 aves por grupo, formado a partir de suas próprias escolhas das melhores companheiras de vida.

Não bastasse terem de viver empilhadas umas sobre as outras, quer gostem ou não do contato físico e da falta de privacidade que isso representa, as fêmeas galináceas são obrigadas a respirarem um ar carregado de amônia, sobrecarregando seus pulmões com infecções. A postura forçada de ovos leva ao prolapso do útero. A galinha não morre com esse prolapso. Ela também não é atendida por um médico, porque o procedimento custa caro. As outras bicam o útero pendurado para fora do corpo. Ela vai morrer de infecção não tratada.

O silêncio, para todo animal, é um condição sine qua non para um repouso tranquilo. Como ter isso em meio a 2.000 ou 10.000 aves em sofrimento contínuo? Impossível. Assim, em estado de estresse crônico, elas se tornam canibais. Para evitar perdas, o sistema queima o bico das pintainhas que serão vendidas para as firmas de ovos. Não nos esqueçamos que a área ao redor do bico de uma ave é formada por uma rede de nervos, garantindo a sensibilidade dos olhos, olfato, auditiva e tátil, sem a qual seu cérebro não poderá receber as informações devidas. A dor da ferida, com a cauterização do bico feita por lâminas de aço ou em brasa e sem anestesia, pode durar semanas… sem analgesia. Esse é o cumprimento de boas-vindas ao mundo, dado pelos humanos às pintainhas que só serão deixadas a crescerem para serem usadas como máquinas de ovos. São ainda bebês, mas é com o bico em ferida que elas devem comer a ração. Basta imaginar como faríamos isso sem dor, se tivéssemos que pegar diretamente com a boca o alimento, sem usar as mãos para introduzi-lo entre os lábios, após termos os lábios cauterizados por uma lâmina em brasa … sem anestesia… sem analgesia.

Um ano de vida, seguindo o padrão da espécie, daria a uma galinha algo em torno de 8.000 horas, das quais umas 4.000 seriam aproveitadas para repouso, de preferência no escuro. Um ano de vida no confinamento completo representa as mesmas 8.000 horas, mas, ao contrário da vida no padrão que seria natural a essa espécie, em vez de ter umas 4.000 horas para descansar, as galinhas têm apenas umas 700 horas de descanso, quando o sistema adotado é de iluminação artificial por até 22 horas diárias.

Sabemos por experiência própria o desgaste que nosso cérebro sofre quando não podemos dormir em paz a quantidade de horas requeridas para o restabelecimento do nosso corpo, da nossa mente e da nossa consciência. Sabemos o desconforto que nos assola, o transtorno de humor, a limitação para iniciar ou manter interações sociais prazerosas, quando nos faltam as horas de sono. Passamos mais tempo dormindo, em nossa vida animal, do que comendo ou trabalhando. Mas, quando se trata do sono dos animais, deixamos de lado qualquer consideração moral. E, para coroar nosso atordoamento, ingerimos os ovos que saem dos organismos estressados dessas fêmeas. Amputamos os anos de vida que sua espécie lhes propiciaria em liberdade, amputamos seus corpos e também as funções saudáveis do cérebro e da mente dessas fêmeas. Tudo isso para extrair delas algo que contém nutrientes disponíveis em alimentos de origem vegetal.

É preciso usar nossa racionalidade instrumental, isto é, nossa capacidade de fazer contas, para redefinir os padrões morais que alimentamos ao nos alimentarmos. Temos usado nossa razão instrumental apenas para calcular o quanto podemos tirar dos animais para nosso proveito. Seguindo o dever de não apenas parar de fazer mal a essas fêmeas, mas começar a fazer o bem a elas, está na hora de começarmos a calcular quanto devemos devolver a elas do bem próprio que lhes vem sendo amputado, quando queremos seus ovos para compor nosso prato já farto de nutrientes.

Fonte: ANDA

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