Carne Nunca Mais
Pé-na-porta contra os robozinhos do sistema

Amar e mudar as coisas me interessa mais

Foto Marcio Almeida BuenoO jornalista gaúcho Marcio de Almeida Bueno tem 35 anos e é ativista pela libertação animal há quase 20 anos. Desde 1995 é vegetariano e em 2005 tornou-se vegano. Sua principal colaboração no ativismo é colocar o Jornalismo a favor da causa. Marcio editava fanzines já na década de 80 e teve produção destacada individual e em parcerias na literatura, nas artes gráficas e na música. Publicou seus cartuns nas revistas Geraldão e Níquel Náusea, e apresentou programas de televisão e rádio. Hoje, além de trabalhar para diversos veículos impressos, online e assessorias de Imprensa, é sócio de uma empresa de Jornalismo. Na militância pelos direitos animais, escreve e colabora em diversos veículos de comunicação e sites, e coordena ações cidadãs em favor dos animais, como a luta pelo fim das carroças na capital gaúcha. Participa do grupo Vanguarda Abolicionista, que mantém um blog sobre protestos e anti-especismo, e é um dos idealizadores do site Provegan, que vai mostrar o lado prático do dia-a-dia vegano. É também criador do Falência Fraudulenta, versão digital do fanzine que mantém deste os longínquos anos 80. Para conhecer suas criações musicais, basta acessar a página de seu novo projeto Game Beat Robot, com cinco músicas de electrorock pró-libertação animal, ou assistir ao videoclipe do seu primeiro single que está disponível no YouTube: . De Porto Alegre, onde mora com sua esposa Ellen, que é bióloga e também vegana, Marcio falou com exclusividade à jornalista Cynthia Schneider, da ANDA, sobre abolicionismo animal no Jornalismo, na música e na cultura geral, e o papel das novas tecnologias no ativismo.

ANDA – Como você iniciou a militância pela abolição animal?

Marcio Bueno – Eu lembro de publicar sobre o tema no meu fanzine quando eu era adolescente, ou pós-adolescente, nos anos 80. A inquietação veio da infância, aquela coisa de notar que tinha alguma coisa errada nisso tudo. Eu acho que o impacto de determinadas imagens, cenas, te abre um horizonte. Por uma série de isenções, de conforto, as pessoas mantêm um certo padrãozinho – “Nem vou pensar em coisas ruins, porque o dr. Lair Ribeiro mandou”. A situação dos animais é algo que eu nunca tinha me dado conta. Há bons exemplos de imagens impactantes que podem fazer uma pessoa despertar. Tem quem diz “ah, aquela cena dos golfinhos no filme Terráqueos não sai da minha cabeça”. No meu caso, lembro de ter recebido um flyer que tinha três fotos: uma de um gato com eletrodos no cérebro, outra com focas sendo espancadas e a terceira com raposas mortar penduradas, e o texto dizia ‘Mortas em nome da moda’. A chamada do flyer era ‘Massacre dos Direitos Animais’. Eu coloquei isso no meu fanzine e foi um choque para as pessoas. Espera aí cara, existe isso? Sim, existe isso numa forma real, não só do tipo “que pena”. Aquilo implicava saber que alguém direciona sua preocupação e a sua vida em relação a isso. E eu fui estudar sobre isso e num estalo de dedos eu virei vegetariano. E foi no ano em que eu larguei o Direito e tinha entrado na faculdade de Jornalismo. O curioso é que a Famecos era famosa, era o lugar mais liberal do mundo, e mesmo ali eu era visto como um ET. Eu era punk, não bebia, não fumava e o pior de tudo: não comia carne. E os comentários das pessoas era de que eu ainda por cima não estava preocupado com aquilo, como se um dia fosse existir um remorso em cima disso. Descobri que todo mundo lá era tão conservador como quem estava fora de lá. Via que os robozinhos do sistema estavam lá dentro e achava possível fazer com que as pessoas começassem a pensar diferente. Aí eu fui intensificando a ideia. Hoje, na minha empresa de Jornalismo, um dos sócios foi meu professor lá e outros dois foram meus colegas, com quem eu me dava na época. E eles me contam que as pessoas diziam que eu era um rol das excentricidades. Eu acabei virando uma referência outsider. Com isso tudo eu vi como era fácil ser diferente – dentro dos padrões, mas não de uma maneira que implicasse uma alteração na realidade e uma mudança em assuntos sérios. Colocar um piercing, fazer uma tatuagem, qualquer idiota faz. Atualmente eu acho que só os idiotas estão preocupados com isso. O difícil é você estar no sistema e não estar nesta agenda do sistema, estar subvertendo. E atualmente eu participo de vários grupos ativistas, escrevo para vários sites e blogs, tenho uma empresa de Jornalismo e faço assessoria de Imprensa para ONGs.

Anda – Com esta postura você acabou convencendo muita gente?

Marcio Bueno – Eu acho que sim. Você acaba agregando pessoas ao seu redor que te convidam porque tem valores que você carrega e que determinadas pessoas não têm. As pessoas viam que se eu era maluco o suficiente, lia autores doidos, ouvia aquele tipo de música, era músico, tinha uma banda doida e me divertia, então era porque isso era legal, tinha um significado interno. E quem ia pesquisar isso aí, via como era uma coisa transgressora. Foi assim que isso acabou atraindo as pessoas. Até hoje eu deixo claro que gosto disso, boto o pé na porta, já agredi muita gente porque tem muita gente que não tem jeito mesmo. Acho que uma boa ideia pode influenciar muita gente. Eu já fui em churrasco, comi o meu tomate e o alface, óbvio que eu falei na boa contra o churrasco. Fiz as pessoas rirem e larguei bolas de pingue-pongue nas idéias delas. Sempre vai ter um cara que vai descobrir: “- Pois é, ele está certo. A gente que é contraditório”. Neste último churrasco que eu fui tinha um senhor que depois, bem baixinho, foi me dizer que era vegetariano. Eu fui ver e ele estava comendo cebola e tomate, tomando cerveja, e eu nem tinha percebido.

ANDA – Quais as suas principais ações para a conscientização sobre o direito dos animais?

Marcio Bueno – A primeira é escrever. Como jornalista eu produzo vários materiais, a maior parte artigos em jornais locais, sites e blogs. Também tem coisas que eu faço como assessor de Imprensa, como a assessoria para um artigo ou para uma entidade já estabelecida como é o caso da Sea Shepherd. Tem o lado do lobby pelos direitos dos animais, que tem funcionado, trabalhando de forma ‘invisível’. Por último tem também a panfletagem, que é o lado mais divertido, mais lúdico da história. Eu não tenho simpatia pelos protestos, porque acho que o resultado é menor. Você tem mais um efeito midiático forte do que um resultado. Se o protesto der sorte de ter a Imprensa presente pode dar certo. Já vi protesto em que a Imprensa estava e no dia seguinte não saiu nada no jornal. Ou seja, o efeito foi zero. Eu prefiro a panfletagem. Vão se aproximar de ti dois tipos de pessoa: os interessados e os chatos. Os interessados vão trocar ideias, vão pegar o endereço, vão buscar material. Às vezes é aquela pessoa que está com meio caminho andado. O chato vem te contrapor e te dá a possibilidade de argumentar, para que tu possa fazer a pessoa sair dali com alguma coisa que ela nunca pôde ouvir de maneira clara. Porque a maioria das pessoas simplesmente liga a televisão e ouve um lado da história, totalmente parcial, e vai criando um conceito em cima daquilo. Temos feito isso regulamente, mas na penúltima vez a gente foi detido pela Brigada Militar. Eu sei que a gente está fazendo uma coisa subversiva, e quem é que vai defender a gente? E tem também a pouca participação dos voluntários e simpatizantes da causa. A gente faz a convocação e no fim vamos só nós, o núcleo de sempre, que atua em várias frentes. Pelo Orkut todo mundo confirma, mas ninguém aparece. E não abordo qualquer um. Por exemplo, numa manhã a gente sai com dois mil panfletos, entrego todos, mas só para pessoas que a gente saca que vai render alguma coisa.

ANDA – Como percebe a influência das tecnologias da comunicação no movimento de libertação animal no Brasil hoje?

Marcio Bueno – Eu acho que as melhores iniciativas no Brasil têm sido a junção de pessoas de diferentes pontos que tenham idéias semelhantes, que são separadas por posicionamentos geográficos, e não ideológicos, e que possam produzir informação. Como jornalista digo que estamos na era da informação, de produção midiática. Quando mais pessoas produzem informação sobre uma coisa, eleva o status dela. Me parece que se pode ter uma massa de informação na Internet, mas não apenas na Internet. Eu hoje posso tomar conhecimento de uma coluna incrivelmente abolicionista que foi publicada por alguém lá no norte do país. É algo que não se via há dez anos atrás. E 20 anos atrás menos ainda. Parece que no passado a coisa estacionou muito na ecologia. Só que a ecologia gera as aberrações como o caçador conservacionista, a carne orgânica. A questão é saber ler a informação: foto, texto, notícia, vídeos e afins circulando entre as pessoas com a intenção de que tomem conhecimento e saibam que aquilo existe e agregue um pouco de saber em relação àquele assunto. É lento o processo. É como a educação. Mas está se falando sobre isso, estão tirado o assunto de dentro da gaveta. É como o abuso de crianças. Antigamente não se falava sobre isso, era proibido falar que havia abuso de crianças. Pedofilia na Igreja? Não se comentava. Hoje estas informações oxigenam as ideias e fazem as pessoas refletir e ver com outros olhos. No momento em que as informações circulam eu posso ver as coisas de uma forma diferente. Uma mudança de 0,01% em alguém já é alguma coisa. Em alguém que tenha, por exemplo, visto o caso do boi retalhado vivo. O cara tem a possibilidade de pensar que é chocante porque o boi estava no asfalto. Mas espera aí, retalhado vivo, dentro de quatro paredes, num abatedouro, aí é legal? Aí o filho pergunta e o pai tem que ter uma resposta. A informação circulou de A para B, pois antes estava estagnada em A. Sei que não podemos fazer com que B faça algo ou tome esta bandeira, mas circulou a informação e eu vou fazer isso de forma repetida. O casamento dos homossexuais foi repetição, repetição, repetição, até que se aceitou. Com o direito das mulheres foi assim também. Se Martin Luther King tivesse dito: “- Eu desisto, voltemos todos para a senzala e vamos usar só o banheiro destinado aos negros”, ainda aceitaríamos a escravidão. Mas não foi isso. Foi o contrário. A gente não está conseguindo agora grandes resultados, mas vai conseguir por repetir.

Os fluxos de informação são o que está valendo. É óbvio que precisa ser dado o passo adiante. Aí entra a minha crítica de que as pessoas que recebem uma só informação acham que isto já vale. Um exemplo disso é o Orkut. Lá todo mundo diz que é ativista, mas não faz coisa nenhuma. O que fazem é ficar o dia inteiro no Orkut, bater boca, olhar e passar adiante fotos grotescas e assinar petições. Petições online não têm valor. As fotos grotescas eu já vi, se não tiver algo a acrescentar, o valor é zero. E qual é a diferença de um ativista ou um sádico olhando essas fotos? Uma piada que a gente usa aqui é que todo mundo quer ser ‘heroizinho vegano’. Mas a gente marca uma simples panfletagem e nenhuma dessas pessoas vai. Todas têm um motivo para não ir. Acho gozado isso. Eu tenho quatro empregos diários como jornalista, mais os eventuais. Eu tenho contas para pagar, mais o aluguel. Mas essas pessoas moram com os pais, e não conseguem. Eu fico pensando nessas pessoas que recolhem uns gatinhos na rua, mostram as fotos para todo mundo e dizem que só podem ficar até amanhã com os bichos. É uma coisa assim: “- Eu peguei, mas vocês aí, o resto do mundo, virem-se porque só pode ficar até amanhã”. Uma coisa tão simples que é abrigar dois gatinhos até conseguir um lugar. Não vou dizer que a pessoa deveria adotar, mas até providenciar um lar. É como o exemplo de fumar maconha. O sistema permite que a pessoa se sinta rebelde, se sinta transgressora, num momento em que ela está ali fumando um baseado. Mas aquilo ali está deixando a pessoa travada. Tem uma letra do Racionais MC’s que tem uma passagem que fala isso. É sobre um cara que era da turma e acabou se embedando tanto e usando drogas que o sistema o travou, e agora “ele não causa mais perigo”.

ANDA – O Estado do Rio Grande do Sul é um forte adepto do abate e consumo de animais e produtos desta origem, atividade incentivada e considerada como tradicional no contexto de CTGs – Centros de Tradição Gaúcha e junto à cultura do churrasco. Até as construtoras usam frequentemente como diferencial o fato dos empreendimentos imobiliários terem churrasqueira social ou na sacada dos apartamentos. Como o movimento abolicionista lida com a questão cultural no estado? E qual o lugar das novas tecnologias da comunicação neste debate?

Marcio Bueno – Eu acho que culturalmente o especismo não é mais forte no Rio Grande do Sul. Em vários casos pessoas que são a favor da exploração de animais não tem ligação nenhuma com CTG, por exemplo. Aqui em Porto Alegre tem condomínio que tem até rodeio dentro. Tem veganos a favor das carroças, e outros que ficam cheios de dedos para condená-las. O que está pautado pela mídia são algumas atitudes como o ecoedifício, o uso de sacolas retornáveis, a economia de água. O resto continua a mesma coisa. É preciso fazer com que as pessoas saiam deste mundo de conforto e alterem alguma coisa tendo uma vida ética também, não somente aquilo de ficar diferente no final da vida.
A novidade da ferramenta de informação que é a internet talvez esteja nas mãos de pessoas não habilitadas. Saber ler e escrever e fazer coisas legais com o computador não te faz um comunicador nem um informador. As pessoas não sabem direito o que fazer e daí têm um comportamento de massa. Na época do ICQ, todo mundo usava, depois veio o MSN, o Orkut, MySpace, Facebook. Houve a explosão do blog, a fase dos fotologs, é algo do tipo: “- Eu tenho uma senha para entrar na Internet. O que tem de legal aí para passar o meu tempo?”. E aí a gente joga com uma produção de informação rasteira. E no momento em que é uma produção em nome de um suposto movimento, vira piada, tem uma perda de conteúdo. Uma coisa é você ler um artigo como eu li ontem dos autores Heron, Luciano e Tagore, no site da ANDA sobre abolicionismo animal, que resume o começo, meio e fim da coisa toda, de forma bem acessível. Aquilo ali tem um efeito, um impacto, que pode ser levado a sério. Você pode mostrar para um intelectual, uma pessoa mais velha, uma pessoa com formação, estudo, e ver se a pessoa não acha que tem uma coerência. É diferente de pegar uma besteira como acontece nos blogs. No Orkut, por exemplo, uma pessoa que é vegetariana há 6 meses não leu nada e discute com todas as pessoas do mundo na base do ‘copiar e colar’ e acha que está fazendo um grande serviço. Mas qual a credibilidade disto tudo? Para quem olha de fora vai achar que é tudo feito por uma gurizada com os hormônios à flor da pele, que discute, bate boca, tem os erros de Português mais grosseiros e não se entende. Mas quando teve uma manifestação aqui, não foi ninguém. Eu lembro quando a gente fez um protesto na frente de um circo e foi pouca gente. O dono do circo, para debochar da gente, disse assim: “- Podem ficar aí. Quando eu estive na Argentina teve duzentos. Vocês estão em trinta”. E realmente, você vê uma foto de uma passeata no Chile, é uma coisa absurda, com muita gente. Eu já organizei protesto em que convoquei todo mundo, e foram três pessoas. Sobre os blogs, as pessoas simplesmente copiam. Se eu digitar o nome de um texto eu vou encontrá-lo reproduzido e replicado centenas de vezes. Se tu quer uma lista de restaurantes vegetarianos, esta lista está replicada centenas de vezes. Ninguém produz conteúdo, só copia. O erro que está em um blog está nos outros, até os erros de digitação.

ANDA – Qual o pior responsável pelos “baldes de sangue”, tortura e crueldade animal, conforme um texto seu publicado no site da ANDA? E qual o principal papel que cada um deve assumir para parar a exploração animal?

Marcio Bueno – Acho que o pior responsável é a pessoa que se propõe a fazer o papel do robozinho do sistema, a fazer o que a sociedade quer que se faça. A pecuária acaba sendo nada mais nada menos do que a cozinha da sociedade. A pecuária e tudo que está ao seu redor existe em função disso. O nosso presidente aparece lá, todo vestido de branco dentro de um frigorífico, entregando um prato de mortadela para as pessoas. Pára e pensa: eu pago impostos que estão lá para serem dados a um frigorífico. Se tu falar para qualquer pessoa ela vai dizer que gerou empregos diretos. Como criticar uma coisa como a pecuária, que gera emprego, gera desenvolvimento, e que entrou na hipnose coletiva? As pessoas ainda têm orgulho. Mas as pessoas sentem orgulho, não o pecuarista – ele está dando risada. As pessoas que jamais viram uma vaca de perto são as que mais defendem a pecuária. Você vai em um CTG, o que é aquilo? É apenas uma celebração da exploração da mão-de-obra. Todo mundo ali é operário da pecuária, em nome de uma pessoa que seria o dono da fazenda, o dono do gado. O resto do pessoal são os operários, não tem nem onde morar. Historicamente, era isso. O gaudério, o gaúcho, morava andando a cavalo, não tinha nem casa. E mesmo assim, na hora de tocar, cantar, escrever uma poesia ou fazer uma manifestação artística, fazem um elogio a esse sistema. Então seria um equivalente a um operário, na hora de fazer sua poesia operária, fazer uma exaltação ao patrão. Eu não vou entrar na teoria marxista nem na luta de classes, mas é curioso isso aí. A pecuária se apropria não só dos recursos naturais ao redor de si. Toneladas de cocô de porco vão acabar em algum arroio, não tem como mandar para algum outro planeta. E depois as pessoas vão ao açougue e pagam por aquilo. E depois quem critica é que é radical, “porque aquele cara está trabalhando”, “ele comprou a terra”. Me parece que porque a coisa é tão errada foi necessário convencer as pessoas, sutilmente, subliminarmente, que tudo aquilo está certo. Eu acho que é como a escravidão. Achavam normal, fazia parte do cotidiano e era estranho ser contra. Todo mundo concordava para não parecer louco e ser enforcado. Com a pecuária está sendo igual. O governo diz: “- Vou dar dinheiro para que a pecuária funcione, a gente vai derrubar a Amazônia. Se não for lá, vai ser em outros lugares, a gente vai ter campos cheios de bichos e caminhões, mas é para uma coisa boa, que é para depois vocês pagarem para comer um bom bife”. Um exemplo da colaboração da mídia com este sistema foi um jornal gaúcho que publicou uma bela matéria falando sobre um protesto contra a Expointer. Mas no final havia um comentário de um dirigente do setor produtivo, dizendo que isso era uma besteira, porque foi a proteína da carne que evoluiu o ser humano e foi a pecuária que promoveu o desenvolvimento do Rio Grande do Sul. E a gente vê esse discurso repetido até por um motorista de táxi, por exemplo. Ele se dispõe a defender o pecuarista. O sujeito não defende o cara que faz computadores ou que é construtor de prédios, ou o cara que é engenheiro. Se tu falar alguma coisa contra a pecuária a pessoa bate no peito com orgulho. “- Ah, a minha família veio de tal cidade, tenho muito orgulho, sou gaúcho”.

ANDA – Você é músico também. Poderia comentar sobre o papel dos animais na cultura musical brasileira?

Marcio Bueno – Eu nunca usei a música como ferramenta para qualquer coisa relativa aos animais. Recentemente, há dois meses atrás, me deu um clique e eu comecei a fazer música em vários projetos, em diferentes estilos musicais. Num deles, que é em som eletrônico, eu comecei a usar somente temática de libertação animal. Teve uma boa resposta. Tem videoclipe no You Tube, página no Myspace. Entendi que posso falar sobre qualquer coisa, então pensei em elaborar letras até sarcásticas, porque a voz é meio robotizada, com esta temática. Eu iria levar isto para pessoas que jamais ouviriam e que vão ouvir por causa da música, e vai ter a letra ali. Claro que sempre vai ter gente que vai odiar a música, mas a temática vai passar adiante. O importante é passar a ‘palavra’, não importa a maneira. Esta foi a primeira vez que usei a música para o ativismo.
Sobre o tema geral na cultura musical, houve um tempo em que eu trabalhei numa FM no Interior do Estado. E obviamente eu tive brigas homéricas com o apresentador do programa de música gauchesca. Ele saiu do programa, e até apagou as vinhetas dele. Hoje a gente é desafeto. Um determinado diretor não queria que ele tocasse música gauchesca que tem piada de duplo sentido, pois o programa dele era um programa bom, ele botava a boa música nativista. Mas às vezes ligava alguém e pedia uma meio baixaria, algum sucesso gauchesco da época. Certa vez tivemos uma reunião sobre se deveríamos ou não tocar este tipo de música. E eu disse que não via problemas nisso, o que eu vetaria seriam duas músicas, uma dizia “…quebrando queixo de potro”, numa referência à maneira de domar o cavalo. Isso é coisa de quem acha que o animal nasce domado e já vira amiguinho do cavaleiro. Isso vale até para quem diz: “- Ah, eu gosto de montar”. O cavalo passa por uma coisa meio mecânica. As pessoas pensam que é como um gatinho, que você bota no colo, ele cresce. É mais uma hipnose… A outra música tinha “…tirando sangue na espora”. Bom, ele ficou vermelho. A minha sorte é que um dos diretores da rádio era agrônomo, e explicou que já existia a doma ‘racional’, não se espancava mais o cavalo, então não tem mais porque tocar uma música com orgulho de “tirar sangue na espora”. Outra coisa que me surpreendeu foi descobrir que muitos músicos são caçadores. A pessoa tem uma enorme sensibilidade para aquele momento, fora dali, não. A coisa inverte. Daí eu começo a pensar: “- Qual é a sensibilidade que ele tem?”. Ele tem a sensibilidade para colocar a coisa num padrão para botar a mão no teu bolso. Os exemplos não são poucos. Pink Floyd, Eric Clapton, Dire Straits, Metallica. Na hora de relaxar vão pegar na espingarda, vão matar um urso. Isto sem falar nas bandas que pregam a zoofilia.

ANDA – O Jornalismo hoje não deveria assumir um papel ético quanto à vida dos animais em nossa sociedade? Um Jornalismo ético é possível?

Marcio Bueno – Seria possível se, todas as vezes que na grande Imprensa saísse uma matéria sobre um cidadão que fez um protesto, invadiu um rodeio ou fez um manifesto contra um circo que estaria promovendo alguma violência contra os animais, dessem a versão completa. Uma matéria grande com duas fotos saiu numa página de jornal daqui sobre a Expointer. O título era ‘Começa o protesto contra a Expointer’. A reportagem dizia que o protesto estava encaminhado, e lá no final havia o depoimento do tal representante do setor, dizendo que tudo o que os ativistas falaram era bobagem. Na minha visão, o outro lado deveria ser apresentado em todas as matérias. Então, se teve um protesto contra a Expointer e há quem tenhadireito de dizer que aquilo é certo ou errado, no final, todas as matérias sobre a pecuária, no final, deveriam ouvir quem é contra a pecuária. Em nome da isenção jornalística, o outro lado deveria sempre ser ouvido, senão é propaganda pró-pecuária. A partir daí estaria movimentando a coisa para uma informação mais justa ou equilibrada. Se a Imprensa não fizer isto, está torcendo por um lado. Houve uma época em que o jornal Zero Hora incluía um box no final das principais matérias que se chamava ‘Para seu filho ler’ ou algo assim. Eram frases didáticas e objetivas como ‘o trânsito é uma maneira de organizar quem anda de carro’ ou ‘a multa é para quem faz uma coisa errada no trânsito’. Mas num caso que repercutiu no Brasil inteiro como o do aluno Rober Bachinski que brigou na Justiça para ter o direito de não participar de aulas com animais na Biologia da Ufrgs, aquele box para as crianças lerem colocou uma visão totalmente parcial. Dizia que ‘um estudante está brigando para não ter que fazer isto ou aquilo. Mas quem quer cuidar de bichinhos tem que antes mexer no bichinho senão não vai saber como fazer’. Ninguém fez qualquer referência como ‘na Europa não se usa animais’, ‘em outros países mais avançados já se usam métodos alternativos que já se mostraram mais eficazes’, ‘isto é antiético porque a gente pode fazer determinadas coisas sem que seja abrir coelhos e jogar fora’. Em vez de realmente buscar os dois lados o jornal se limitou a dizer ‘olha, filho, o guri aqui está esperneando, mas tu não esperneia na tua aula’ e ‘a professora manda, não faça diferente, senão tu vai sair aqui no jornal e as pessoas vão rir de ti’. Então, cadê a isenção jornalística? Cadê o espaço dado para o outro lado, em todas as matérias? Saem cadernos especiais sobre suinocultura e agropecuária. Mas no final lá deveriam colocar que a suinocultura é responsável pela destruição ambiental e quem está comendo um delicioso medalhão de porco deve saber que tal e qual coisa está sendo demolida, e ainda mostrar fotos. Mostra o escoadouro, mostra como é a mortandade de peixes por causa da água que sai do chiqueirão. Deveria ter um box contando que um porco permanece a vida inteira sob condições às quais uma pessoa iria presa se fizesse com seu cachorro. Essa pessoa sairia na capa da Veja como sádica. Agora, porque é com um porco passa a ser um produtor, recebe incentivos, tem orientação da Emater. Nenhum jornalista faz isso. Então cadê a isenção? Para que se tenha um Jornalismo ético é necessário que se tenha o outro lado. E o que tem que se considerar também é que a Imprensa é feita pelos operários da Imprensa. E eles só tem o direito de publicar o seu próprio material, atualmente, na Internet. Mas eu não desanimo. Tem aquela música do Belchior, “amar e mudar as coisas me interessa mais”. Eu quero ser a ferramenta certa para que eu possa, com um bom argumento, mudar o que está girando ao meu redor.

ANDA – Você é colaborador e colunista da ANDA. Como vê a atuação da Agência de Notícias dos Direitos dos Animais?

Marcio Bueno – Acredito que a ANDA é a pioneira na tentativa de organização da informação pró-animais, e de denúncia das atividades contra eles. Pois há centenas de notícias, fotos, relatos, depoimentos, artigos, colunas, vídeos e afins que cruzam a Internet, que são publicados ou transmitidos nos demais veículos de comunicação, e obviamente a clipagem é a única maneira de ordenar esse tsunami caleidoscópico em que vivemos. Para que não se perca nem diminua seu valor a zero no dia seguinte, como acontece na grande Imprensa. Não deixar que a informação seja tratada por quem não tem qualificação técnica para isso, apesar das boas intenções. Com isso, ‘se fazer levar a sério’, que talvez seja o ponto principal em relação à questão do posicionamento ético frente aos animais. A maioria das pessoas ignora que haja uma idéia sobre tratar os animais diferente das cercas, pauladas, chicotes, chutes, tiros, arpões, pedradas e marretadas tradicionais. Tal como o Talibã não saber o que fazer com as mulheres, por exemplo. E do restante, mesmo entre os mais esclarecidos, pensar os animais de forma positiva se resume a ‘ter um cachorro’ ou ‘gostar de natureza’. Uma coisa hippie, datada, molenga e que mantém os animais no mesmo patamar de escravos suscetíveis à vontade dos humanos. Então a importância é apresentar ideias de gente séria, com currículo e histórico pessoal, para que a Imprensa veja – digo Imprensa como primeira a abrir os olhos e reproduzir os sinais de fumaça – que existem idéias melhores, mais corretas, mais justas, sem demagogia, utopia nem ‘volta às cavernas’. Aos poucos o repórter de um grande jornal vai perceber que ele pode ter uma fonte para sua matéria CONTRA a pecuária, e que esta fonte é um jurista respeitado, com renome e com argumentos sólidos. Provavelmente ele sai da redação já orientado – pelo editor ou por sua própria noção – a buscar um maluquete ‘que não come carne’, com barbicha, chinelo franciscano, movido a incenso e outros clichês. Mas vai encontrar alguém como ele, um jornalista, um publicitário, um profissional liberal, uma filósofa, uma bióloga, que com discurso coerente vai apresentar as informações que ele procura, e provavelmente muitas que ele desconhecia. Como fazer tudo isso chegar ao grande público? Vamos marretar com conteúdo constante, sempre com qualidade. Um dia vai ter monografia/TCC sobre a ANDA, escrevam o que estou dizendo. Vivemos em uma sociedade midiática, e a ANDA pode ser a torre de resistência frente ao bombardeio diário do lobby da carne, dos laticínios, dos ovos, do couro, da moda, dos testes em laboratório, dos rodeios e circos, da caça e da simples pedrada em cachorro no dia-a-dia das cidades. Tenho uma coluna semanal que me permite jogar tijolo em quem está fora dessa torre, para que acorde ou para que passe alguns dias com um galo na cabeça, mesmo. Com o maior orgulho de alinhar ombros com alguns totens da
libertação animal do Brasil. Tenho certeza que a maioria dos demais colunistas pensa o mesmo. O brabo disso é que eu me obrigo sempre a produzir textos com a maior qualidade e concisão possíveis, pois ‘o páreo é duro’… epa!

Fonte: ANDA

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