Carne Nunca Mais
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Sobre ter um animal de estimação ou ‘tenha fé, meu filho’

por marcio de Almeida Bueno

Então há a posse, essa coisa que permite ao dono brincar de divindade com o animal de estimação. Comprei, paguei, achei, adotei, ganhei, prendi lá no fundo do pátio. Dou comida e água, é bem tratado. Mas às vezes o Deus dos animais acorda de ressaca, ou fica dois dias fora de casa, ou precisa descontar em alguém a raiva do patrão, esposa, sogra, presidente da república, time de futebol ou imposto. E há um fiel só, que reza em boa parte do dia, no fundo do pátio ou mesmo em cima do sofá, ‘como se fosse da família’. Pode sobrar castigo para esse devoto, ou não. A divindade chutou a porta, mas não o cachorro. Deu meia-volta e deixou comida para o gato, em plena saída para a praia.

Em ambos os casos, exerceu seu poder sobre a vida em quatro patas que sua vontade dita os desígnios. Um bom Deus, ou não. O que socorre ou o que deixa morrer embaixo do Sol – não pode desconhecimento, mas por decisão. Um fiel ganha banho e tosa e lacinho nas orelhas, o outro ganha um osso quadrado do churrasco se tiver sorte. Em ambos os casos, olham para cima e esperam o que virá. Objetos que comem e fazem cocô diariamente, mas com um papel pré-fixado desde o começo – esta é a hora de comer, este é o lugar para ficar, este não é o lugar para ficar, esta é a hora de latir para o ladrão, esta é a hora de não fazer barulho, seu desgraçado, que eu quero dormir.

E há divindades que escolhem sua rêmora pelo fetiche do que é fofo, do que cabe melhor no apartamento, do que é para patricinha, do que é para lutador de jiu-jitsu, do que está na moda – o pitbull de hoje já foi dobermann nos anos 80, que já foi pastor alemão. Só muda o nome de quem assina o cheque.

E os animais ainda estão presos à escolha do encaixe na vida das pessoas, ‘um cão bom para ter no sítio’, ‘um gato que não incomoda’, ‘um passarinho pra fazer companhia pra vó, tadinha, né?’. À espera de que seu destino, que nao mais lhe pertence desde que viraram alvo, fotos de catálogo, nicho de mercado, escravos patetas que trabalham independente de condições. Anos à frente de seus focinhos, uma linha reta sem escolhas, mas o eterno aguardo pela mão divina que vai lhes tocar o cangote por alguns segundos. Se a reza foi com fé.

Fonte: Vista-se

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