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Esse “outro” que sou: bonobo ou chimpanzé?

por Sônia T. Felipe

Frans de Waal sem dúvida é o maior estudioso de primatas dos últimos 40 anos [Primates and Philosophers: how morality evolved; Our Inner Ape; The Age of Empathy; Bonobo: The Forgotten Ape; Good Natured; Peacemaking Among Primates; Cf. http://www.emory.edu/LIVING_LINKS/Empaty%5D. Seu trabalho é feito numa área natural, manejada pelos cientistas para que os animais tenham liberdade de ação de acordo com o espírito de sua espécie. Mas, conforme o próprio cientista lamenta, embora esse manejo permita a ele observar a forma de expressão da mente desses primatas, a liberdade animal que essa forma de observação permite é restrita, vigiada. Isso impede que o cientista tenha acesso real às expressões que seriam próprias do animal caso vivesse numa área não delimitada e pudesse mover-se para prover-se sem as restrições que uma reserva impõe. Mas, nesse caso, a própria observação seria quase impossível, porque bonobos temem os humanos e não fazem contatos com eles, a menos que sejam para obter alimentos. Deixando de lado as considerações acima, importantes quando se discute o limite dos métodos ao qual a etologia conseguiu chegar ao observar animais fora das gaiolas e jaulas de laboratórios, circos e “santuários”, o que vamos enfatizar é a questão da semelhança e da diferença entre as formas de interação de bonobos e de chimpanzés.

Bonobos são primatas parecidos com os humanos, quando pensamos que esses gostam de estar reunidos e de resolver suas dificuldades em grupo, em cooperação mútua, sem visar obter vantagens individuais que possam prejudicar os demais membros do grupo. Chimpanzés, por seu lado, também se parecem com os humanos, ou vice-versa, por resolverem suas questões tendo como eixo o estabelecimento do poder individual hierárquico. Enquanto os bonobos convivem sem recorrer à agressão, à ira, à fúria ou a qualquer explosão raivosa para mostrar aos demais “quem é o dono do pedaço”, chimpanzés disputam continuamente o lugar mais elevado na hierarquia, e, nessa disputa, podem até conseguir um aliado, mas esse sabe muito bem que finda a disputa seu lugar será o mesmo de antes do conflito. Pode receber algumas migalhas ao final do evento, mas não obterá a função de poder daquele a quem ajudou.

Humanos podem ser comparados aos dois tipos de primatas: aos bonobos e aos chimpanzés. O paradoxo no qual vivemos é que, mesmo tendo semelhança com bonobos e gostando de estar em grupo, nossas interações dentro do grupo acabam se aproximando mais do estilo chimpanzé do que do estilo bonobo. Os grupos aos quais nos filiamos, a bem da verdade, têm caráter chimpanzélico e não bonobólico. As interações exigidas pela atividade profissional são competitivas, não cooperativas. Quando cooperamos, via de regra, aguardamos um retorno compensatório para o investimento afetivo, sexual, econômico e social realizado.

Bonobos “conversam” o tempo todo uns com os outros. São seres “falantes”, e suas entonações externalizam seus estados emocionais, dando aos demais um parâmetro para estabelecerem as interações. Chimpanzés raramente se comunicam fora das situações de perigo nas quais o vigilante dispara o alarme para que os demais se protejam ou se preparem para o enfrentamento de um agressor. Bonobos se tocam o tempo todo, e usam o sexo para finalidade de recompor laços enfraquecidos ou rompidos por alguma diferença que não dá para resolver de outro modo, especialmente as que produzem mágoas. E, para espanto de quem sempre ouviu falar que não há homossexualidade entre animais, bonobos fazem sexo sem finalidade reprodutiva, tanto com parceiras e parceiros do sexo oposto, quanto com parceiras e parceiros do mesmo sexo. O contato sexual refaz os vínculos de confiança. A intimidade física assegura a parceria social. Sexo é um modo de desculpar-se e de restabelecer a igualdade física.

Na escala evolutiva, bonobos, chimpanzés e humanos fizeram escolhas que os levaram a constituir-se de modo específico em suas naturezas, sem que nenhum desses grupos tenha evoluído a partir de qualquer outro deles. Mas, há um tronco genético comum que nos assemelha a eles e eles a nós. Talvez possamos dizer que temos traços que se assemelham a bonobos e traços que se assemelham a chimpanzés. Nossas interações afetivas e sexuais, no entanto, estão mais próximas dos chimpanzés. Enquanto seguimos trocando de parceiros sexuais assim que eventos nos evocam afetos desconfortáveis, apenas fugimos da solução dos problemas, trocando a pessoa com quem a interação se revelou complexa por outra pessoa, nova, com quem a interação parece não ser complexa apenas porque é muito recente. Assim, deixamos de aprimorar nossa capacidade interativa que sustenta a afetividade permanente e o vínculo duradouro característicos da verdadeira relação amorosa.

Bonobos têm disputas. Mas elas são de curta duração. Passada a emoção negativa inicial, aquele que já não sente raiva se aproxima e refaz o contato físico. Desarmado, o outro aceita a retomada do vínculo amoroso, porque a vida continua e precisa de sustentação duradoura, algo que vínculos recentes não podem assegurar. Bonobos cuidam uns dos outros, têm filhos com intervalos de cinco anos, os meninos ficam por muito tempo com suas mães, talvez por isso não se tornem tão agressivos quantos os chimpanzés que se afastam de suas mães bem cedo e começam a viver por conta e risco, sem o filtro emocional que a companhia da mãe amorosa acaba por propiciar, para alívio das tensões causadas pelos riscos da vida solitária. Estressados, os chimpanzés reagem em explosões de raiva ao mínimo estímulo desconfortável. Serenos em suas emoções e quase indiferentes às picuinhas das disputas cotidianas, os bonobos machos armazenam suas endorfinas o suficiente para fazer frente aos percalços e insuficiências das interações diárias em busca do autoprovimento e provimento dos seus.

Bonobos vivem com os outros aceitando sua presença sem irritarem-se a todo momento por não estarem sendo “servidos”. Chimpanzés, estressados pela contínua disputa na qual se põem para conseguirem impor-se aos demais de forma hierárquica, irritam-se por coisas mínimas e partem para a expressão explosiva dessa irritação assim que são contrariados.

Se temos semelhanças com as duas naturezas primatas, então, ao nos colocarmos na relação amorosa de modo bonobólico ou chimpanzélico, fazemos nossas escolhas. As escolhas que fazemos definem o modo como interagimos no presente e o modo pelo qual interagirão conosco no futuro. Dado que envelhecemos a cada dia, se adotamos o modo dos bonobos de interagir, e nos apresentamos para a retomada do vínculo amoroso assim que a contrariedade deixa de fazer sentido, construímos um futuro de interações capazes de refazerem os vínculos amorosos após algum incidente. Se interagimos conforme os chimpanzés, e, à menor contrariedade, impomos aos pares um castigo ou punição severas por suas falhas, sem considerar que estamos tramados na tessitura que levou ao episódio, envelhecemos com essa habilidade bem saliente. Dela não colheremos amor nem apoio no final da nossa vida. Esse “outro” que escolhemos ser, bonobo ou chimpanzé, instala-se em nós e domina nossa vida amorosa presente. Dela saem os ramos e as raízes dos vínculos amorosos ou bélicos que povoarão nossa vida futura. Ser bonobo ou chimpanzé, eis a questão!

Fonte: ANDA

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