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Cow Parade Porto Alegre: vacas-clone, população bovina e Terceira Idade em fúria

por Marcio de Almeida Bueno

Então a Cow Parade está ocorrendo em Porto Alegre durante este mês, para quem mora em Marte são estátuas de vacas pintadas/customizadas por artistas ou não, talentosos ou não, e espalhadas pela cidade. No caso, a Capital da terra do churrasco, Porto Alegre. Nada mais apropriado que uma estátua de vaca, esse animal transformado em agrupamentos de milhares-milhões de clones pela pecuária, atividade essa que orgulha o brasileiro que paga pelo bife diário.

Foto: Marcio de Almeida Bueno
cow parade

Mais interessante do que ver as ‘instalações’ – que geralmente são piadas visuais, sacadas feitas a partir do nome da obra, e que sem este elas ficariam com menos sentido ainda – é observar a reação das pessoas. Não à ‘arte’, mas ao fato de haver uma representação de vaca onde antes havia uma calçada vazia, por exemplo. ‘Mãe, olha a vaca!’, ‘Quequiéessasvaca?’ e ‘Filho, vem ver a vaca’ são frases-senhas ditas pela maioria dos que se aproximam das peças. Uma das mais ‘polêmicas’ é uma vaca sobre uma grelha, espetada da proa à popa, com uma manivela para ser girada – o nome da obra-prima é ‘Televisão de gaúcho’.

Quando se soube que haveria a Cow Parade, foi aventada a idéia de protesto, de flash mob, happening, intervenção ou afins pegando o gancho dessas estátuas para falar de especismo, veganismo etc, mas… reparo que a população em geral sequer compreendeu direito o que está acontecendo. Alguns acham que é propaganda do patrocinador das peças – uma tradicional empresa de laticínios do RS, cujo logotipo é uma vaca lambendo os beiços, outros botam as crianças em cima como se fosse um daqueles brinquedos onde se coloca uma moeda, e então passa a se movimentar. E muitos olham intrigados, incrédulos, com medo de parecer idiotas se perguntarem o que é aquilo. Quase vejo um capim sendo mascado em suas bocas – e nisso não há nenhum deboche meu, mas parece um comportamento de bando, idêntico, sincronizado, resignado.

Há exceções.

Hooligans tocaram fogo em uma das vacas, pixaram outra, furtaram uma terceira. Aquela coisa que faz todo o sentido quando se está em grupo, como ver quem arrota mais alto, peida mais fedido ou cospe mais longe. Ou tudo misturado. Mas houve reações bacanas, como a do octagenário poeta Moyses A. Pereira. Eu voltava do trabalho quando vi um senhor ‘já entrado nos anos’ colando um cartazete com durex em uma vaca instalada na Esquina Democrática, coração de Porto Alegre. Era uma poesia de protesto, e o autor ficou por ali, observando a reação das pessoas. Fui conversar com o poeta, que gentilmente me deu uma cópia do cartazete que havia grudado na vaca.

Foto: Ellen Augusta Valer de Freitas
cow parade

Ele contou que estava em transição para o vegetarianismo, ainda comia peixe “porque Jesus abençoou os peixes”. OK, seu Moyses, nem vamos discutir. Parabenizei-o pela atitude e pelo poema, que apesar de não ser abolicionista destaca-se em meio aos comentários frouxos que todos os milhares de passantes, naquele ponto de fluxo tão intenso, proferiam. Aquela coisa de voltar do almoço com os colegas ‘da firma’, palitando os dentes, e dizer ‘olha a vaca aí, Osvaldo’, porque é a único fiapo de diferença que existe no dia. A diferença entre os clones voluntários e os clones à força. Abaixo, a poesia de uma Terceira Idade em fúria – acho que o Peter Singer gostaria.

Salvem as vacas!

Poeta Moyses A. Pereira

Deus fez as vacas pras mães
Que não têm leite pra o filho,
Em recompensa ela morre
Comida pra todos nós.
Mão criminosa lhe mata!…
Impiedoso golpe à faca
Faz calar seu coração
Pobre vaca! Não merece
Desrespeito, ingratidão!

Pobre civilização!
Que mata esta mãe de leite
E agora, serve de enfeite
Inútil, na triste praça,
Que não fala da desgraça
Da vaca que nos dá leite
E morre tão desprezada
Sem ninguém pra defendê-la,
Servindo apenas de enfeite!”

Fonte: Vista-se

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