Carne Nunca Mais
Pé-na-porta contra os robozinhos do sistema

Chifres em fogo e o sadismo passando a língua nos lábios

por Marcio de Almeida Bueno

Assim como alguém usou sua criatividade para elaborar complexos instrumentos de tortura para os humanos, houve também quem utilizasse sua capacidade de imaginação e raciocínio – essa âncora-argumento especista de muita gente – para inventar métodos para provocar dor nos animais não-humanos. Se um país de Primeiro Mundo segue com a tradição do touro de fogo, não há desculpa plausiível de ignorância, desconhecimento ou primitivismo. Tochas acesas são presas em um sarrafo amarrado nos chifro do touro, que corre pelas ruas sentindo o calor lentamente queimando a parte interna sensível do chifre. A situação dura horas, e muita vezes o fogo atinge até os olhos do animal.

Qual o sentido de criar algo para provocar dor em um animal? Vê-lo se debatendo, no sofrimento mudo de quem não sabe bem como se defender, até ficar exausto. Uma via-crucis, sendo que a morte não sacraliza a vítima – paradoxalmente, o touro de fogo é tradição na Península Ibérica, conhecida pelo forte catolicismo. O animal está ali para jugo total dos humanos, sem limites ou regras, então nada mais catártico do que a tortura, sentir prazer ao ver o outro, e aí não se questiona jamais a senciência, sofrendo e experimentando o mais alto pico de dor que a ele tenham direcionado. Imagino o prazer quase sexual – ou a substituição deste – para o populacho que corre pelas vielas das cidadezinhas espanholas, adrenalina e suor, queimando os chifres deste animal-patrão, animal-esposa-chata, animal-sogra, animal-vida-vazia-do-interior, um momento aguardado com tesão e ansiedade de adolescente.

Mas o dia-a-dia de uma fazenda, esse refúgio bucólico promotor do desenvolvimento, segundo os trouxas, é uma feira de variedades da tortura e subjugo dos animais. Confinamento, contenção, instrumentos, ferro, fogo, argolas, violência – tudo é pensado para manter a casta bovina quieta e obediente ao empregado do pecuarista, este como o cowboy de funcionários e animais.

A idéia de que a zona rural é Sítio da Vovó Donalda é mero subterfúgio do remorso, que fecha os olhos a cada copo de leite bebido, a cada mastigada no bife. Um manual de produtividade leiteira é um passeio pela inventividade humana aplicada à extração, fórceps em mãos, dos produtos animais enquanto estes ainda estão vivos, agonizantes na mudez e no olhar que reflete a silhueta do agressor. Para alguns poucos a dor e escravidão, encerrada com morte, significa lucro e os filhos estudando em bons colégios. Para a maioria pateta, é um consórcio da tortura, pago diariamente no caixa do supermercado. Para uma minoria crescente, choca e merece repúdio.

Mas a produção de alimentos é sempre percebida – idéia vendida pela mídia – como uma atividade bondosa, preocupada com a fome no mundo, geradora de empregos e que alavanca a cidade, o estado, o país. Ok, mas quem não tem grana não compra nada no supermercado, então é uma eterna corrente de dinheiro financiando a exploração animal, com vistas a um bom prato na mesa, três vezes ao dia. E empregos cabem sob qualquer guarda-chuva, não apenas este ou aquele. O ramo que impulsionou economias devastou outras – porque a natureza não entra no cálculo, nem a prensa dada nos não-humanos – e muda conforme o vento, basta ler um livro de História.

E como é para ‘matar a fome do mundo’, qualquer técnica é válida, desde castrar – pense bem, senhor leitor do sexo masculino, ser derrubado no chão e ter seus testículos cortados a frio – até marcar com ferro quente. Cortar bico dos frangos, OK. Vitela sem poder se mexer, OK. Argola no nariz do porco, para este não fuçar no chão, OK. Gado confinado, OK. Vacas que não saem de um galpão, OK. Siris fervidos vivos, Ok.

Mas a dor vai permanecer no pensamento humano como o máximo de frenesi a ser aplicado em outrem e em si, e já que marcos da humanidade como a Santa Inquisição e a escravidão negra não mais existem, falta o objeto-espelho a observar no ápice da sensação. Gozar um prazer proibido ao assistir, adrenalina e suor, um diferente de si absorvendo a tradição de tortura que a História carrega, sem poder falar, o olho arregalado como único esperneio possível, a via-crucis em moto-perpétuo, tentando arrancar os pecados dessa maioria molenga e que procura desesperada por alguma emoção fora do circuito trabalho-família-vício ao qual se permite, e exercitando o aprendizado da submissão, vingança contra os maiores, e desejo inconfessáel de experimentar a posição de andar de quatro, apanhar, arder em fogo, ser derrubado, castrado, marcado a ferro quente, acorrentado e – orgasmo suado atrás de portas fechadas – ser morto como um mártir, vestes em trapos como Jesus tirado da cruz, secreções corpóreas pelo chão, sob olhar-espelho de superiores, inferiores e iguais.

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