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Bicho não é gente

—– Original Message —–
From: Rapaz Curto
Sent: Wednesday, May 05, 2010 3:22 PM
Subject: Sobre o artigo “Bicho não é gente”

O colunista de Zero Hora Cláudio Moreno, em sua coluna de 4 de maio de 2010, conseguiu provar que é possível ser culto em uma área do conhecimento e ser curto em outras.
Para o articulista, em seu artículo “Bicho não é gente” (leia-o na íntegra, ao final desta mensagem), “Há gente pregando por aí o fim de qualquer limite, rebaixando o homem e endeusando o animal, a quem atribuem “direitos”. Mas são seres irremediavelmente diferentes! Eles têm lá seus sentimentos, desenvolvem algumas habilidades, trocam mensagens básicas com os demais membros da espécie – mas isso é tudo. Só nós temos a capacidade de dizer não a nossos instintos, só nós podemos ter consciência de nós mesmos (e disso o nosso rosto é a expressão mais visível) e só nós nos preocupamos em definir os limites éticos de nossa relação com os animais. Eles não têm direitos; nós é que temos deveres para com eles…”.

Se verdadeiros os argumentos arremessado, pode-se depreender que:

> Quem não tem a capacidade de dizer não a seus instintos, como uma criança faminta ou como um mãe que mesmo sob risco de morte tenta salvar a qualquer custo seu filho em perigo, está alguns degraus abaixo de “nós”, que “temos a capacidade de dizer não a nossos instintos”;

> Quem não tem consciência de si mesmo, como os portadores de distrofias mentais severas, também estão alguns degraus abaixo de “nós”, que “temos consciência de nós mesmos”;

> Quem se preocupa em definir os limites éticos de nossa relação com os animais está alguns degraus acima dos outros, mesmo que “definir os limites éticos” signifique “azar, stou com fome e minha barriga ronca mais alto que minha ética…

Partindo das premissas do curto articulista, é perfeitamente possível justificar o abuso de crianças, afinal, elas não tem, ainda – a “capacidade de dizer não a seus intintos”, quando bebês não “tem consciência de si mesmos”, e “não se preocupam em definir os limites éticos de sua relação com os animais” – isot é, ainda seguindo a linha de raciocínio perpetrada no artículo, os menores não tem direitos.

Mas o mais triste é que, apesar de ser um excelente articulista sobre questões do idioma pátrio (o articulista é professor de português) e de entender muito de mitologia, com excelentes artigos escritos a respeito de ambos os assuntos, o profeçor desconhece lições mínimas – e terríveis – de História: os mesmos argumentos por ele utilizados neste artículo já foram esgrimidos como verdades incontestáveis em outras épocas – leia-se o texto do rapaz, com a palavra “animal” trocada por outras palavras representativas de grupos então minoritários, e tem-se uma noção muito clara do quanto falta para evoluirmos.

O artigo original – preconceito atual Onde lê-se “bicho”, leia-se “índio” – preconceito passado Onde lê-se “animal”, leia-se “negro” – preconceito passado Onde lê-se “animal”, leia-se “negro” – preconceito passado

Bicho não é gente

“Infelizmente, essa confusão entre os dois mundos nem sempre é tão inofensiva. Há gente pregando por aí o fim de qualquer limite, rebaixando o homem e endeusando o animal, a quem atribuem “direitos”.

Mas são seres irremediavelmente diferentes! Eles têm lá seus sentimentos, desenvolvem algumas habilidades, trocam mensagens básicas com os demais membros da espécie – mas isso é tudo. Só nós temos a capacidade de dizer não a nossos instintos, só nós podemos ter consciência de nós mesmos (e disso o nosso rosto é a expressão mais visível) e só nós nos preocupamos em definir os limites éticos de nossa relação com os animais.

Eles não têm direitos; nós é que temos deveres para com eles…”.

Índio não é gente

“Infelizmente, essa confusão entre os dois mundos nem sempre é tão inofensiva. Há gente pregando por aí o fim de qualquer limite, rebaixando o homem e endeusando o índio, a quem atribuem “direitos”.

Mas são seres irremediavelmente diferentes! Eles têm lá seus sentimentos, desenvolvem algumas habilidades, trocam mensagens básicas com os demais membros da espécie – mas isso é tudo. Só nós temos a capacidade de dizer não a nossos instintos, só nós podemos ter consciência de nós mesmos (e disso o nosso rosto é a expressão mais visível) e só nós nos preocupamos em definir os limites éticos de nossa relação com os índios.

Eles não têm direitos; nós é que temos deveres para com eles…”.

Veado não é gente

“Infelizmente, essa confusão entre os dois mundos nem sempre é tão inofensiva. Há gente pregando por aí o fim de qualquer limite, rebaixando o homem e endeusando o veado, a quem atribuem “direitos”.

Mas são seres irremediavelmente diferentes! Eles têm lá seus sentimentos, desenvolvem algumas habilidades, trocam mensagens básicas com os demais membros da espécie – mas isso é tudo. Só nós temos a capacidade de dizer não a nossos instintos, só nós podemos ter consciência de nós mesmos (e disso o nosso rosto é a expressão mais visível) e só nós nos preocupamos em definir os limites éticos de nossa relação com os veados.

Eles não têm direitos; nós é que temos deveres para com eles…”.

Negro não é gente

“Infelizmente, essa confusão entre os dois mundos nem sempre é tão inofensiva. Há gente pregando por aí o fim de qualquer limite, rebaixando o homem e endeusando o negro, a quem atribuem “direitos”.

Mas são seres irremediavelmente diferentes! Eles têm lá seus sentimentos, desenvolvem algumas habilidades, trocam mensagens básicas com os demais membros da espécie – mas isso é tudo. Só nós temos a capacidade de dizer não a nossos instintos, só nós podemos ter consciência de nós mesmos (e disso o nosso rosto é a expressão mais visível) e só nós nos preocupamos em definir os limites éticos de nossa relação com os negros.

Eles não têm direitos; nós é que temos deveres para com eles…”.

Como pulou a história de Roma e seu legado jurídico durante seus estudos, o profeçor esquece que um dos preceitos básicos do Direito, herança dos romanos, é o de que a cada direito corresponde um dever, e vice-versa. Assim, ao afirmar que “Eles não têm direitos; nós é que temos deveres para com eles,”, dá a entender que já que temos deveres para com eles também temos direitos sobre eles.

O fecho de ouro, digno de quem domina gramaticalmente o idioma mas não avança muito nas idéias que fujam deste campo do conhecimento (como Ética e História), é do gênero ‘oração-final-que-mostra-que-apesar-de-tudo-eu-não-sou-mau’: … “uma responsabilidade que se tornou gravíssima no momento em que todos os animais deste planeta – da foca ao tigre, da anta ao canguru – passaram, tanto quanto o gato de nossa casa, a depender do bem ou mal que decidirmos fazer.”.

Restrinja-se a o Português à Mitologia, professor, faça este bem à humanidade. E aos animais.

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O artículo, na íntegra:

Bicho não é gente

Plínio, o grande naturalista de Roma, dizia que o elefante era o mais humano dos animais – e por várias razões. Primeiro, porque entendia a língua do seu país, obedecia às ordens que recebia e lembrava muito bem de suas tarefas. Depois, porque era sensível aos prazeres do amor e da glória, e possuía, num grau raro até mesmo entre os homens, noções de honestidade e justiça. Além disso, demonstrava extraordinária prudência, pois, embora fosse corajoso, sempre procurava evitar as perigosas viagens por mar, recusando-se a subir em qualquer navio sem que antes seu tratador prometesse, solenemente, que um dia o traria de volta para casa.

Havia evidências indiscutíveis de que este nobre animal tinha uma inteligência fora do comum e dela se orgulhava. Plínio conta que Mutianus, que foi cônsul por três vezes, conheceu um elefante que, tendo aprendido a traçar com a tromba todo o alfabeto grego, fazia questão de riscar na areia macia a frase “Eu mesmo escrevi estas palavras” – e a este contrapõe o exemplo daquele outro que, envergonhado por ter nascido com o raciocínio mais lento, tinha sido surpreendido, à noite, revisando em segredo as lições que o treinador lhe ministrava durante o dia…

Os leitores do passado aceitavam candidamente esses relatos de Plínio. Não enxergavam o absurdo contido na simples ideia de um paquiderme alfabetizado, nem indagavam como é que se descobre quando um elefante está com vergonha, ou que método ele usa para revisar as lições do dia anterior. O romano de dois mil anos atrás imaginava que os animais eram muito mais próximos do homem do que realmente eles são, atribuindo-lhes a capacidade de pensar e de entender a linguagem humana – não muito diferente, aliás, de uma querida amiga minha que, ainda hoje, mantém “conversas sérias” com o cachorro, certa de que basta falar bem devagar para que o danado entenda frases repletas de orações condicionais e de verbos conjugados no futuro!

Infelizmente, essa confusão entre os dois mundos nem sempre é tão inofensiva. Há gente pregando por aí o fim de qualquer limite, rebaixando o homem e endeusando o animal, a quem atribuem “direitos”. Mas são seres irremediavelmente diferentes! Eles têm lá seus sentimentos, desenvolvem algumas habilidades, trocam mensagens básicas com os demais membros da espécie – mas isso é tudo. Só nós temos a capacidade de dizer não a nossos instintos, só nós podemos ter consciência de nós mesmos (e disso o nosso rosto é a expressão mais visível) e só nós nos preocupamos em definir os limites éticos de nossa relação com os animais. Eles não têm direitos; nós é que temos deveres para com eles, uma responsabilidade que se tornou gravíssima no momento em que todos os animais deste planeta – da foca ao tigre, da anta ao canguru – passaram, tanto quanto o gato de nossa casa, a depender do bem ou mal que decidirmos fazer.

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